O azar dos Távoras
desses defensores do Acordo (Ortográfico) é que, primeiro, nunca leram devidamente o texto dele e, segundo, não
têm lido os jornais, em Portugal e, sobretudo, no Brasil.
Se o tivessem
feito, teriam percebido sem grande convulsão cerebral por que razões até o
Brasil recusa o dito na sua forma presente, de tão mau que o papel é, e ficavam
também a saber que o adiamento veio culminar um processo de protestos
consecutivos da sociedade civil brasileira reclamando toda uma série de
alterações às normas nele contidas. [...]
[...] Os
defensores do AO agarram-se
desesperadamente à situação que eles mesmos ajudaram a criar, procurando que
fosse imposto e adoptado sem discussão, jogando nas evasivas, escamoteando o
que se passa em Angola e Moçambique, esgueirando-se à revelia das normas
jurídicas e científicas aplicáveis, colaborando no atropelamento das mais
elementares regras de bom senso, dando como facto consumado a submissão da
sociedade civil à força da asneira.
Nesse engano de
alma ledo e cego, sentem-se porventura mais confortáveis com as três
ortografias que estão a ser aplicadas, deixam vibrar amplamente os humores com
a tal "unidade" da língua portuguesa que afinal contribuíram para
desmantelar e agora acorrem, num transe de subtileza hermenêutica que de
repente deles se apossou, a proclamar que tudo está como dantes e nada
aconteceu...
É pena. Deveriam
escabujar dando punhadas grossas no peito, fazer o mea culpa de preceito e
deixar-se de fitas. E deveriam ajudar a pensar como se há-de encontrar uma
solução decente para o imbróglio em que Portugal está metido por causa deles.
[...]
Vasco Graça Moura in
"Diário de Notícias"
.
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