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Wilson (à esquerda) e Penzio junto da antena do seu rádio-telescópio no Laboratório Bell
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Robert Wilson e Arno Penzias, dois investigadores do
Laboratório Bell, em 1965 publicaram um pequeno artigo de 600 palavras no
"Astrophysical Journal", pouco maior que este post, pequeno na forma
mas enorme de conteúdo (o artigo, não o post!), que viria a mudar o pensamento da Cosmologia internacional. Os dois rádio-astrónomos disseram ao mundo que tinham "ouvido"
o ruído do Big-Bang! Pequeno ruído transformado em bomba noticiosa.
O "The New York Times" titulava na primeira página,
em grande formato: "SIGNALS IMPLY BIG BANG UNIVERSE". E Penzias
escrevia: "Quando você sai à noite e tira o chapéu, recebe na cabeça um pouco
do calor do Big-Bang. E, se tiver um bom receptor de FM e escutar entre as
estações de rádio, ouve aquele ruído ch-ch-ch. Provavelmente, já ouviu esse
tipo de som. Às vezes, não é muito diferente do barulho das ondas da praia. Desse
som, cerca de meio a um por cento vem de há milhares de milhões de anos atrás".
Penzias falava do que se chama Micro-Ondas Cósmicas de Fundo (MCF), restos de
radiação produzida no Big-Bang e que chega até nós, depois de percorrer distâncias
inenarráveis, com muito menor energia, e por isso muito maior comprimento de
onda, na faixa da radiação dos nossos fornos de aquecer pizzas. É o fenómeno do
redshift, de que já falei em tempos, semelhante àquela cena do barulho do
comboio que, quando se aproxima, faz uh, uh^, uh^^; mas quando se afasta faz uh^^, uh^, uh (efeito
Doppler). O que Wilson e Penzias "ouviram" foi o comboio a
afastar-se. A descoberta foi decisiva para arrumar com a teoria do
universo eterno ou mantido, o "Steady State Universe".
Curiosamente, foi mais um caso de serendipidade, de que ontem falei. Wilson e Penzias andavam à procura de outra coisa e, para isso, procuravam eliminar radiações inconvenientes do seu rádio-telescópio. Mas uma dessas radiações persistia e eles não sabiam donde vinha. Como dizia Churchill, tropeçaram mas não passaram adiante—em boa verdade, até "marraram" naquilo que era marginal ao trabalho que estavam a fazer. E, eis senão quando, Robert Dicke e James Peebles, da Universidade de Princeton, levantam a hipótese teórica da existência das MCF. Já não era hipótese teórica porque Wilson e Penzias as tinham detectado, exactamente com o comprimento de onda previsto pelos investigadores de Princeton, embora sem perceberem o que eram.
Curiosamente, foi mais um caso de serendipidade, de que ontem falei. Wilson e Penzias andavam à procura de outra coisa e, para isso, procuravam eliminar radiações inconvenientes do seu rádio-telescópio. Mas uma dessas radiações persistia e eles não sabiam donde vinha. Como dizia Churchill, tropeçaram mas não passaram adiante—em boa verdade, até "marraram" naquilo que era marginal ao trabalho que estavam a fazer. E, eis senão quando, Robert Dicke e James Peebles, da Universidade de Princeton, levantam a hipótese teórica da existência das MCF. Já não era hipótese teórica porque Wilson e Penzias as tinham detectado, exactamente com o comprimento de onda previsto pelos investigadores de Princeton, embora sem perceberem o que eram.
Parece que um francês, de seu nome Emile la Roux, em
1955, e um tal ucraniano Tigran Shmaonov, em 1957, já tinham tropeçado nas MCF,
mas pensaram que era defeito dos seus telescópios com que podiam viver e
passaram adiante. Aí está: a serendipidade está guardada para quem a há-de
aproveitar, como o bocado para quem o há-de comer.
E era aqui que queria chegar e já cheguei. Acaba assim a
seringadela astronómica.
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