domingo, 13 de janeiro de 2013

QUE DIRIA O QUE, QUE É TÃO USADO ?

.
«O estilo varia de autor para autor e tem, modernamente, maiores exigências que no passado, porquanto aperfeiçoaram-se os meios pelos quais se alcança a beleza literária, desde a beleza do pensamento e elegância da forma, até à luz e harmonia das palavras. Ante a riqueza de uma língua como a nossa, a superabundância dos mesmos vocábulos, em especial quando colocados próximos, macula a prosa e o verso, tornando-os desmúsicos, contrafeitos e, por consequência, desagradáveis. O apuro auditivo, tão importante na estética da linguagem, sabe e consegue evitar as repetições prejudiciais.
É sempre possível eliminar a insistência do que e para tal basta uma leitura cuidadosa em voz alta.» [...]

[...] «Oliveira Martins (OM), no seu magistral prefácio dos Sonetos Completos, de Antero de Quental, incorreu em idêntico defeito (segue citação de OM): "Mas o leitor é que nada tem que ver com esses casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro nos conhecemos e que só terminará naquele em que um de nós, ou ambos nós, formos descansar para sempre sob meia dúzia de pás de terra fria» [...]

[...]  «Por uma razão: o pensamento do escritor, ao correr veloz, sob o domínio de poderosa força oculta, assemelha-se à locomotiva. Não causa estranheza, portanto, um ou outro descarrilamento.» [...]

Os fragmentos de texto acima incluídos foram retirados do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, da autoria de Magnus Bergström e Neves Reis, da Editorial Notícias. E lembrei-me deles ao ler passagens de jornais portugueses recentes. Por exemplo, este:

[...] O Governo que se tem empenhado neste ano e meio de mandato em cumprir o programa de transformações, ao mesmo tempo que está a corrigir os desequilíbrios, reduzir o défice do Estado - o que tem sido feito, apesar de haver menos receita fiscal -, o que significa, portanto, que é falso que o Governo não tenha cortado na despesa o suficiente", referiu. [...]

 E este:

[...] Temos um líder da oposição que, enquanto se entretém a escolher para câmaras importantes os primeiros alvos inimigos do seu antecessor, propõe tão timidamente eleições antecipadas que todos percebem que o que quer mesmo é que o atual Governo aplique este plano infernal e passe pelo purgatório até ao juízo final quando for tempo de, com o caminho limpo dos pecados, começar de novo e fazer diferente. [...]

Não sou versado em jornalismo e não sei se o cuidado com o estilo é muito ou pouco importante em tal actividade. Talvez, como dizem os autores do prontuário citado, o pensamento do jornalista, ao correr veloz, sob o domínio de poderosa força oculta, se assemelhe à locomotiva e não deva causar estranheza um ou outro descarrilamento. Aceito. Mas, uma coisa é a notícia redigida em cima do acontecimento, e outra o artigo de opinião, habitualmente escrito com vagar bastante para algum esmero, como é o segundo exemplo—5 vezes o que em 67 palavras (uma por cada 13 palavras—é muito!).  
.                                                     

Sem comentários:

Enviar um comentário