«O estilo varia de autor
para autor e tem, modernamente, maiores exigências que no passado, porquanto
aperfeiçoaram-se os meios pelos quais se alcança a beleza literária, desde a
beleza do pensamento e elegância da forma, até à luz e harmonia das palavras.
Ante a riqueza de uma língua como a nossa, a superabundância dos mesmos
vocábulos, em especial quando colocados próximos, macula a prosa e o verso, tornando-os
desmúsicos, contrafeitos e, por consequência, desagradáveis. O apuro auditivo,
tão importante na estética da linguagem, sabe e consegue evitar as repetições
prejudiciais.
É sempre possível eliminar
a insistência do que e para tal basta
uma leitura cuidadosa em voz alta.» [...]
[...] «Oliveira Martins (OM), no
seu magistral prefácio dos Sonetos Completos,
de Antero de Quental, incorreu em idêntico defeito (segue citação de OM): "Mas o leitor é que nada tem que ver com esses casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro nos
conhecemos e que só terminará naquele
em que um de nós, ou ambos nós,
formos descansar para sempre sob meia dúzia de pás de terra fria» [...]
[...] «Por uma razão: o pensamento do escritor, ao
correr veloz, sob o domínio de poderosa força oculta, assemelha-se à
locomotiva. Não causa estranheza, portanto, um ou outro descarrilamento.» [...]
Os fragmentos de texto
acima incluídos foram retirados do Prontuário Ortográfico e Guia da
Língua Portuguesa, da autoria de Magnus Bergström e Neves Reis, da Editorial
Notícias. E lembrei-me deles ao ler passagens de jornais portugueses recentes.
Por exemplo, este:
[...] O Governo que
se tem empenhado neste ano e meio de mandato em cumprir o programa de
transformações, ao mesmo tempo que está a corrigir os desequilíbrios,
reduzir o défice do Estado - o que tem sido feito, apesar de haver menos
receita fiscal -, o que significa, portanto, que é falso que
o Governo não tenha cortado na despesa o suficiente", referiu. [...]
E este:
[...] Temos um líder da oposição que, enquanto se entretém a escolher
para câmaras importantes os primeiros alvos inimigos do seu antecessor, propõe
tão timidamente eleições antecipadas que todos percebem que o que
quer mesmo é que o atual Governo aplique este plano infernal e passe
pelo purgatório até ao juízo final quando for tempo de, com o caminho limpo dos
pecados, começar de novo e fazer diferente. [...]
Não sou versado em
jornalismo e não sei se o cuidado com o estilo é muito ou pouco importante em
tal actividade. Talvez, como dizem os autores do prontuário citado, o
pensamento do jornalista, ao correr veloz, sob o domínio de poderosa força
oculta, se assemelhe à locomotiva e não deva causar estranheza um ou outro
descarrilamento. Aceito. Mas, uma coisa é a notícia redigida em cima do
acontecimento, e outra o artigo de opinião, habitualmente escrito com vagar
bastante para algum esmero, como é o segundo exemplo—5 vezes o que em 67
palavras (uma por cada 13 palavras—é muito!).
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