Em tempos falei de uma coisa estranha no nome e na
substância, qual é a serendipidade(!). Para quem não sabe, digo que é a
descoberta de coisas por acaso. Em boa verdade, é por acaso mas não
completamente porque, além de sorte, implica espírito de observação. Passando a
factos, a descoberta da penicilina por Fleming—uma
das mais importantes da Medicina—foi um caso típico de serendipidade. Fleming,
que era bacteriologista, esqueceu-se de tapar placas de cultura de bactérias e,
poucos dias depois, verificou que estas não se haviam multiplicado em alguns locais da placa, contrastando com outros sítios onde cresceram. Intrigado, foi ver o que se passava nos locais
onde não havia crescimento e encontrou lá um fungo do género Penicillium que produzia uma substância
inibidora do crescimento das bactérias, depois identificada e que viria a ser o
primeiro antibiótico, a penicilina. A descoberta resultou dum acaso—Fleming não
planeou deixar as placas destapadas, mas soube valorizar a observação. Churchill disse um dia que os homens muitas
vezes tropeçam na verdade, mas levantam-se e seguem, como se nada tivesse
acontecido. Fleming, Pasteur, Art Fry, inventor do Post-it, e muitos outros são
exemplos de quem tropeçou e tentou perceber porque tropeçara.
Se o desconhecimento do termo serendipidade não é raro, o
conhecimento de como apareceu é ainda mais raro. Pouca gente, incluindo os que
o usam—na Medicina é frequente—sabem quem o criou. Pois foi um político e escritor,
de seu nome Horace Walpole, que o usou numa carta, em 1754, onde escreveu:
[...] Esta
descoberta, na verdade, é quase do tipo que chamo serendipidade, palavra muito expressiva
que, como não tenho nada melhor para dizer, vou tentar explicar-te: percebes melhor pelo
modo como nasceu, do que pela definição.
Uma vez, li um conto chamado "As Três Princesas de Serendip":
à medida que Suas Altezas viajavam, faziam descobertas, por acidente e
sagacidade, de coisas que desconheciam. [...]
Isto foi há 259 anos e o termo sobrevive, apesar de conhecido
e usado por tão pouca gente. Mal sabem os entusiastas do ®Viagra que a
descoberta do fármaco foi também um caso de serendipidade. Criado para o tratamento
de doenças do foro da Cardiologia, depois de nos ensaios se ter verificado
inútil, os investigadores suspeitaram de que teria qualquer outro efeito quando
um dos doentes que havia participado se recusou a devolver os comprimidos
sobrantes. Palavra puxa palavra e ele aí está cheio de sucesso. Viva a
serendipidade!
.

Sem comentários:
Enviar um comentário