sábado, 12 de janeiro de 2013

VIAGRA

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Em tempos falei de uma coisa estranha no nome e na substância, qual é a serendipidade(!). Para quem não sabe, digo que é a descoberta de coisas por acaso. Em boa verdade, é por acaso mas não completamente porque, além de sorte, implica espírito de observação. Passando a factos, a descoberta da penicilina por  Fleming—uma das mais importantes da Medicina—foi um caso típico de serendipidade. Fleming, que era bacteriologista, esqueceu-se de tapar placas de cultura de bactérias e, poucos dias depois, verificou que estas não se haviam multiplicado em alguns locais da placa, contrastando com outros sítios onde cresceram.  Intrigado, foi ver o que se passava nos locais onde não havia crescimento e encontrou lá um fungo do género Penicillium que produzia uma substância inibidora do crescimento das bactérias, depois identificada e que viria a ser o primeiro antibiótico, a penicilina. A descoberta resultou dum acaso—Fleming não planeou deixar as placas destapadas, mas soube valorizar a observação.  Churchill disse um dia que os homens muitas vezes tropeçam na verdade, mas levantam-se e seguem, como se nada tivesse acontecido. Fleming, Pasteur, Art Fry, inventor do Post-it, e muitos outros são exemplos de quem tropeçou e tentou perceber porque tropeçara.
Se o desconhecimento do termo serendipidade não é raro, o conhecimento de como apareceu é ainda mais raro. Pouca gente, incluindo os que o usam—na Medicina é frequente—sabem quem o criou. Pois foi um político e escritor, de seu nome Horace Walpole, que o usou numa carta, em 1754, onde escreveu:

[...] Esta descoberta, na verdade, é quase do tipo que chamo serendipidade, palavra muito expressiva que, como não tenho nada melhor para dizer, vou tentar explicar-te: percebes melhor pelo modo como nasceu, do que pela definição.  Uma vez, li um conto chamado "As Três Princesas de Serendip": à medida que Suas Altezas viajavam, faziam descobertas, por acidente e sagacidade, de coisas que desconheciam. [...]

Isto foi há 259 anos e o termo sobrevive, apesar de conhecido e usado por tão pouca gente. Mal sabem os entusiastas do ®Viagra que a descoberta do fármaco foi também um caso de serendipidade. Criado para o tratamento de doenças do foro da Cardiologia, depois de nos ensaios se ter verificado inútil, os investigadores suspeitaram de que teria qualquer outro efeito quando um dos doentes que havia participado se recusou a devolver os comprimidos sobrantes. Palavra puxa palavra e ele aí está cheio de sucesso. Viva a serendipidade!
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