sábado, 9 de março de 2013

CAIR DE CU

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Há minutos escrevia a um amigo com longa carreira científica, que pinta também. Havia-me ele dito que ultimamente não tem pintado porque andou a preparar uma conferência. Embora mais novo, fiz-lhe ver a asneira: na fase da vida em que navegamos—ele e eu—a Ciência só serve para chegar à Filosofia ou à Arte. A ideia não é original—está até estafada—mas precisamos de ser militantes.
Leio neste momento um livro chamado, em tradução livre, "Bater à Porta do Céu" (Knocking on Heavan's Door), de Lisa Randall, investigadora de Física Atómica na Universidade de Harvard. Ali escreve que os físicos teóricos como ela não experimentam nada: fazem conjecturas no encéfalo, no papel, no computador e deixam a outros o trabalho de verificar se asnearam ou não. É o que se faz no acelerador de partículas de Genebra, digo eu: "caçar" as burrices dos teóricos e, às vezes, felicitá-los porque fizeram carambola, como aparentemente aconteceu com Higgs. E acrescenta a física a seguir: 
"No futuro, o nosso trabalho não vai modificar o que as pessoas comem ao jantar; mas pode dizer-nos alguma coisa sobre quem somos e de onde viemos" (Para ser franco, gostei desta).
Novos conhecimentos na Física das partículas e na Cosmologia—curiosamente, o muito pequeno e o muito grande são iguais ou muito parecidos—podem permitir compreender o mundo de forma  nova e sugerir ideias e métodos úteis fora da ciência, melhorando a capacidade de decidir noutra áreas, acrescenta Randall.
É um facto que grandes filósofos foram—e são—também grandes cientistas. Galileu, Pascal, Russell e Dawkins são exemplos; para não falar de Platão ou Aristóteles, estes mais filósofos que físicos. Hoje, mesmo os filósofos primariamente formados como tal, têm sólida formação científica, sob pena de não terem acesso a informação indispensável à disciplina e, com muita probabilidade, serem filósofos de segunda. Não sou filósofo nem cientista—embora gostasse de ser—mas tal condição não impede  a tentativa de perceber um nadinha melhor o barco e o mar onde andamos. E ler a divulgação escrita por quem o é constitui um hobby fascinante. Coisas como as dimensões não conhecidas, a curvatura do espaço, a matéria negra, ou a teoria das cordas, são de fazer cair o queixo, para não dizer cair de cu.

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