Coisas simples são frequentemente difíceis de definir:
por exemplo, a simetria. É esta um conceito que se aplica a objectos materiais,
a leis da Física e a muitas ideias abstractas. Toscamente, diria que simetria é
a imagem, o conceito, ou o sentimento espelhado em relação a um eixo. O Taj Mahal
é o exemplo predilecto.
Mas a simetria, como quase tudo na vida, é relativa e já
assim era antes de Einstein. Em boa verdade, é uma abstracção que não existe.
Mesmo o Taj Mahal cumpre mal a regra se visto iluminado obliquamente, com sombras projectadas a
quebrá-la. Sobretudo, é convencional e circunstancial a simetria.
Imaginemos uma mesa redonda com doze comensais em volta e
doze copos colocados à sua frente, de tal modo que todos têm dois copos à mesma
distância. Qual é o copo de cada um? O da direita ou da esquerda? Abstraindo de
convenções protocolares, pode ser qualquer deles—é a simetria perfeita. Será?
Não é, porque é convencional: se um dos presentes, acometido de súbita sede, pega
no copo da esquerda para beber, acabou a simetria perfeita—a partir desse
momento, todos os comensais só têm um copo—o da esquerda. Não há mais possibilidade
espelhada.
Se estivermos perante um muro de 10 metros de
comprimento, com superfície lisa e completamente uniforme aos nossos olhos e de
altura crescente da esquerda para a direita, olhado de longe não é simétrico,
está visto. Mas se colarmos o nariz no muro e o olharmos assim aproximados, a
imagem que vemos é espelhada em relação à linha que passa pelo meio do nosso
nariz—então, caímos no logro e dizemos que o muro é simétrico—simetria
circunstancial.
Provavelmente, outros exemplos podem ser referidos, mas
não interessam agora. Estes bastam para chegar à ilusão chamada realidade, que
engana o homem. Depende do ponto de vista, do preconceito, da fraqueza do
espírito, do viés político, filosófico, religioso, blá, blá, blá. Vinicius
escreveu assim:
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário.
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