Num trecho sobre literatura, intitulado "Hedonismo
boémio", publicado em jornal que não interessa, por crítico que também não
interessa, pode ler-se o seguinte:
[...] Com estas linhas medraram grandes poetas como
Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyder ou Richard Brautigan, mas foi
o hedonismo boémio com que encaravam a existência o que mais cunhou a sua
imagem pública. [...]
E, a seguir:
[...] É aliás essa estroinice o que imediatamente
ressalta de ‘E os Hipopótamos Cozeram nos seus Tanques’, livro escrito em 1945
pelo duo William S. Burroughs e Jack Kerouac—a primeira obra de ambos—, baseado
no assassínio de David Kammerer por Lucien Carr, seus amigos próximos, ocorrido
no ano anterior, e que só agora, falecido Lucien Carr, pôde ser publicado: tudo
se passa no ambiente desregrado e ocioso de um grupo de jovens sem dinheiro,
pouco inclinados ao trabalho e ávidos de novas experiências, vagueando de bar
em bar e de festa em festa, embebidos em álcool e nas mais diversas drogas. [...]
Exemplos destes podiam dar-se às dezenas, em menos de meia hora de pesquisa. E, chegados aqui, com que ideia se fica? Que o hedonismo é uma festa de alarves, comportamento mais que criticável, conduzindo em linha recta ao desastre. Tal e qual!
Exemplos destes podiam dar-se às dezenas, em menos de meia hora de pesquisa. E, chegados aqui, com que ideia se fica? Que o hedonismo é uma festa de alarves, comportamento mais que criticável, conduzindo em linha recta ao desastre. Tal e qual!
Não é, ponto.
O conceito ético de hedonismo nasceu na cabeça do grego
Epicuro e, por isso, a teoria é também chamada epicurismo. Mas Epicuro sofria
do estômago, comia frugalmente e só bebia água. Num dos seus escritos, pode
ler-se: "Sinto enorme gosto quando vivo a pão e água e desprezo os prazeres
da luxúria, não por eles em si, mas pelas consequências que têm". Epicuro
amava o prazer, mas abominava o sofrimento que dele pode resultar. A "ressaca"
pós-intoxicação pelo álcool era coisa que não experimentava nunca.
Assim, a felicidade, a "festa", o bem-estar
conseguem-se, segundo Epicuro, apenas
pela renúncia, não pela satisfação—ponto de vista próximo da Filosofia Cristã. Mais
que o prazer, importa evitar a dor que ele traz.
Por isso, temos hoje que fazer a distinção: o que se
chama frequentemente hedonismo e não é mais que alarvice—a que Epicuro é
estranho—e epicurismo, filosofia da temperança, do fitness e do bem-estar.
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