terça-feira, 14 de maio de 2013

EU E A MINHA CIRCUNSTÂNCIA

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Pedro comprou um carro  em segunda mão a João, mecânico. O carro era um lixo e estava sempre a avariar. Cada vez que tal acontecia, Pedro levava-o a João que substituía uma, duas ou três peças. Ao fim de meses todas as partes do carro tinham sido substituídas. João guardou as peças velhas e construiu outra vez o carro. Para João aquele era o carro original. Pedro estava também convencido que tinha o carro original. A história não podia ser mais estúpida, mas é importante.
Somos todos constituídos por átomos, ou moléculas melhor dizendo, que podemos considerar equivalentes às peças do carro que João substituía. Ao longo da vida todas elas mudam e a, partir de certa idade, somos como o carro do Pedro—o original foi-se! Quem somos agora? Ortega y Gasset dizia que era ele e a sua circunstância: uma boa tirada para contornar a dificuldade. O que queria dizer é que ele era o seu eu influenciado pelo meio que habitava nesse momento e pelas condições físicas daí resultantes, sendo o seu eu uma entidade psicológica imaterial. Na realidade, o que permanece e dura uma vida é o conhecimento que o nosso psiquismo tem de nós, psiquismo que mantém as características gerais imutáveis, pois estão inscritas no ADN e este muda as peças mas não a arquitectura ou o funcionamento.
Dito assim, parece fácil mas não é. Imaginemos que era possível transplantar o cérebro dum jovem acabado de morrer para um homem de 70 anos, como se faz com o coração, o rim e por aí fora. O homem transplantado pensava o quê? Sentia-se jovem num corpo velho, ou velho com cérebro novo? O mais provável era sentir-se jovem com corpo velho, como o cérebro numa tina aqui falado há dias. Daí que, eventualmente, o chamado eu esteja no cérebro. Não direi estar: será uma emanação dele.
Mas os nossos órgão envelhecem—como as peças dos carros se gastam—e um belo dia somos bastante diferentes do que éramos, começando a embraiagem a patinar, a bateria a não accionar o motor de arranque, o escape a tornar-se ruidoso, coisa muito comum nos velhos (!), e por aí fora. E então? Somos os mesmos, ou não? Eu acho que sim, mas é possível que não sejamos. Perante um desejo expresso aos 20 anos, que fazer quando a mesma pessoa tem 90, se for coisa complicada, como não ter suporte artificial de vida em caso de doença aguda e coisas dessas? Não sei e Ortega y Gasset já morreu. É pena porque devia ter outra tirada literária de arromba para os vindouros citarem.
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