Ortografia é parte—dita normativa—da gramática, que
estabelece como escrever corretamente as palavras de uma língua definindo,
nomeadamente, o conjunto de símbolos (letras e sinais diacríticos), a forma
como devem ser usados, a pontuação, o uso de maiúsculas, etc. Não sei se a
definição está completamente correcta, mas não interessa—serve para o efeito. A
gramática em geral, por sua vez, é o estudo e tratado dos factos de uma
língua e das leis que a regem, aplicando-se aqui a mesma reserva que à
definição de ortografia—não interessa também isso.
Uma e outra resultaram de evolução lenta ao longo de
séculos, até chegarem ao estado actual. Por exemplo, Fernão Lopes, aqui citado
há dias, escrevia assim no Século XV: He nossa entençon curtamente fallar, nom
come buscador de novas razõoes, per propria invençom achadas, mas come
aiumtador em huum breve moolho, dos ditos dalguns que nos prouguerom. Era
complicado e foi bom que as coisas mudassem para mais simples, de forma a
tornarem-se mais claras.
Mas a pergunta é: até onde deve ir a simplificação e como deve ser feita?
Na consciência das pessoas, a gramática está ligada a
valores que são ou não importantes, conforme o ponto de vista. Há quem leve a
matéria muito a sério. No Reino Unido, verbi gratia, há uma sociedade para a protecção
do apóstrofo—Apostrophe Protection Society (!)— com vários
projectos em curso, nomeadamente um baseado no conceito de que há estreita
ligação entre a sintaxe correcta e a excelência moral. Por exemplo, têm a
convicção de que manter a ordem gramatical significa que se podem acautelar
outros tipos de ordens sociais. Não posso estar mais de acordo.
Mas, como em tudo, há quem discorde e ache até pedantismo
essa coisa de regras sintácticas e ortográficas—espíritos dados à "anarquia",
à boémia, ao "progresso", ao "bloco de esquerda" e por aí
fora. O ponto e vírgula é uma bandeira de tal disputa—quem diria? Os
conservadores acham que saber usá-lo não é sinal de inteligência; é sinal de
que se sabe seguir regras. Para Kurt Vonnegut Jr, escritor e provavelmente
"progressista", o ponto e vírgula serve apenas para mostrar que se
tem estudos.
É difícil lavrar tal campo porque tem muitas pedras e é acidentado.
Em minha modesta opinião, ser prudente e conservador é indicado. O que muda bem
é habitualmente resultado de evolução natural, como a biológica e é lenta. O
que muda à força de marteladas de um qualquer Malaca Casteleiro é um aborto.
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