Anselmo Borges é
teólogo e filósofo, ensina na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e
colabora regularmente aos sábados no "Diário de Notícias". Hoje
escreve sobre o tema "Animais Humanos e os Outros", o que é uma boa
escolha.
O propósito
subliminar de todo o texto é demonstrar que o homem, sendo um produto biológico
da evolução, representa mais que isso por ter dado adicionalmente um passo
evolutivo ontológico não observado nos outros animais. Diz logo a abrir o
seguinte: «Como escreveu Edgar Morin, "embora muito próximo dos chimpanzés
e gorilas, e tendo 98% de genes idênticos, o ser humano traz uma novidade à
animalidade". Há, apesar de tudo, entre etólogos e antropobiólogos,
convergência bastante no reconhecimento de que entre o animal e o homem se deu
um salto qualitativo essencial».
E acrescenta
depois factos que, segundo ele, suportam tal ponto de vista. Por exemplo, cita Max
Scheler quando dizia que «o homem é
"o asceta da vida", pois é capaz de dizer não aos impulsos
instintivos. Perante a comida apropriada, o animal não resiste a comer, mas o
homem é capaz de dizer não, por motivos de ascese ou pura e simplesmente para
mostrar a si mesmo e aos outros que tem a capacidade de resistir e dizer não».
Depois de mais
argumentos semelhantes, termina assim: «Se admitimos a evolução, não é de
estranhar que encontremos já nos chimpanzés, gorilas, bononos, antecedentes do
que caracteriza os humanos. No entanto, com o homem, o salto foi para uma
realidade essencialmente nova. Para lá das notas apontadas e outras que
poderíamos apresentar, como a criação e contemplação da beleza, o levantamento
de edifícios jurídicos para dirimir pleitos, o sorriso e a sepultura, está o
facto de só o homem levar consigo precisamente a questão da diferença entre ele
e os outros animais. Só ele tem deveres para com eles, sem reciprocidade.»
Salvo o devido
respeito por tão qualificado académico, não estou nada de acordo com ele. Na
realidade, há enorme diferença entre o chimpanzé, o gorila e o bonono, por um
lado—os seres evolutivamente mais próximos de nós—e nós, homens. Mas porque
representa isso um passo ontológico e o mesmo não representa a diferença entre
o vírus e a bactéria, ou entre o rato e o cão?
Penso que há um
viés intelectual no pensamento do teólogo e filósofo Anselmo Borges provocado
por indevida influência da convicção religiosa, coisa que é comum. Não se pode
misturar alhos com bugalhos. Pela ciência nunca chegaremos à crença religiosa.
Ela não infirma esta, mas também não a afirma—são foros de todo diferentes.
Pode ser-se cientista e crente,
cientista e ateu, leigo e agnóstico, leigo e crente, blá, blá, blá, como pode
ser-se socialista e do Sporting, democrata-cristão e do Benfica, do POUS e do Estoril
(malvados!), e por aí fora. O cu não tem nada a ver com as calças.
Pio XII embarcou
numa ratoeira assim quando usou a Teoria do Big-Bang para provar a genuinidade
do Genesis, mas deu bota. Um dos próprios autores da Teoria—Lemaître—que por
coincidência também era padre e teólogo, apressou-se a mexer influências para o
Papa calar a boca sobre a matéria e este nunca mais falou disso. Não é com a «contemplação
da beleza, o levantamento de edifícios jurídicos para dirimir pleitos, o
sorriso e a sepultura» que se chega à fé. Todas essas coisas podem ser explicadas sem fé pela evolução neurobiológica.
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