Descartes defendia o dualismo: corpo e espírito—ou alma,
ou actividade psíquica—seriam coisas diferentes. A ele se opuseram os
fisicalistas (não confundir com fiscalistas!), para quem o psiquismo seria
produto do corpo. O acabado de referir está tosco, mas serve para o que
preciso.
A disputa foi longa e brava entre as duas correntes, como
são sempre ao discutir coisas que ninguém percebe—especialmente os que participam
na discussão—e talvez ainda não tenha acabado. Assim como discorrer sobre se a
tuberculose cutânea e a lepra eram ou não a mesma doença, sem saber que uma é
provocada pelo bacilo de Koch e a outra pelo bacilo de Hansen—adiante.
No meio da peleja, surgiu um janota e filósofo australiano,
de seu nome Frank Jackson, com uma história careca a defender o dualismo, que
se tornou clássica, apesar de ser careca e já ser o ano de 1982. O nome da novela
é "O Que Maria Não Sabia", que em português parece o título de um
"Romance Tide" e fica mais "compostinho" em inglês:
"What Mary Didn't Know". Então, é assim:
Mary nasceu e foi metida num quarto em que tudo era a
preto e branco, com algum cinzento à mistura, incluindo a televisão, os livros,
as roupas e, naturalmente, digo eu, o penico, os bifes, a alface, o cocó e o
xixi. Estudou tudo quanto havia para estudar e saber, incluindo Física Newtoniana
e Quântica, leu "A Bola"—a preto e branco—e conheceu Vítor Gaspar
numa fotografia— a preto e branco, naturalmente.
Um dia, já adulta, Mary saiu do quarto, viu o mundo em
"Technicolor"e, imaginem, não sabia qual era a cor vermelha, nem a
azul. Ela que sabia ter o vermelho comprimento de onda de 620 a 750 nm e o azul
de 450 a 495 nm! Se a actividade psíquica fosse gerada pelo cérebro, Mary saberia
muito bem qual era o vermelho e qual era o azul afirmava triunfante o dualista e
um bocadinho burro, Jackson.
Neste mundo há muitos "Jacksons" e todos os
dias ouvimos alguns "Jacksons" do Governo falar. Mas este fez escola
e resistiu até chegar a "O Dolicocéfalo"!!! Então, o janota achava
que, sabendo Mary toda a Física das cores, seria obrigada a conhecer o vermelho
e o azul, sem nunca os ter visto. Um filósofo que ignora ser o
conhecimento—todo ele—fruto da elaboração mental do que chega à "caixa dos
pirolitos" através dos sentidos, que devia ser incorporado no Regimento de
Cavalaria da GNR na qualidade de cavalgadura, faz escola e é citado nos livros
de Filosofia. Pior, só François Hollande!
Assim se faziam ainda teorias no Século XX e continuam a fazer-se no corrente, seguramente. O Homo sapiens é um espectáculo!
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