segunda-feira, 13 de maio de 2013

PEDRA DURA

.
Descartes defendia o dualismo: corpo e espíritoou alma, ou actividade psíquicaseriam coisas diferentes. A ele se opuseram os fisicalistas (não confundir com fiscalistas!), para quem o psiquismo seria produto do corpo. O acabado de referir está tosco, mas serve para o que preciso.
A disputa foi longa e brava entre as duas correntes, como são sempre ao discutir coisas que ninguém percebe—especialmente os que participam na discussão—e talvez ainda não tenha acabado. Assim como discorrer sobre se a tuberculose cutânea e a lepra eram ou não a mesma doença, sem saber que uma é provocada pelo bacilo de Koch e a outra pelo bacilo de Hansen—adiante.
No meio da peleja, surgiu um janota e filósofo australiano, de seu nome Frank Jackson, com uma história careca a defender o dualismo, que se tornou clássica, apesar de ser careca e já ser o ano de 1982. O nome da novela é "O Que Maria Não Sabia", que em português parece o título de um "Romance Tide" e fica mais "compostinho" em inglês: "What Mary Didn't Know". Então, é assim:

Mary nasceu e foi metida num quarto em que tudo era a preto e branco, com algum cinzento à mistura, incluindo a televisão, os livros, as roupas e, naturalmente, digo eu, o penico, os bifes, a alface, o cocó e o xixi. Estudou tudo quanto havia para estudar e saber, incluindo Física Newtoniana e Quântica, leu "A Bola"—a preto e branco—e conheceu Vítor Gaspar numa fotografia— a preto e branco, naturalmente.
Um dia, já adulta, Mary saiu do quarto, viu o mundo em "Technicolor"e, imaginem, não sabia qual era a cor vermelha, nem a azul. Ela que sabia ter o vermelho comprimento de onda de 620 a 750 nm e o azul de 450 a 495 nm! Se a actividade psíquica fosse gerada pelo cérebro, Mary saberia muito bem qual era o vermelho e qual era o azul afirmava triunfante o dualista e um bocadinho burro, Jackson.

Neste mundo há muitos "Jacksons" e todos os dias ouvimos alguns "Jacksons" do Governo falar. Mas este fez escola e resistiu até chegar a "O Dolicocéfalo"!!! Então, o janota achava que, sabendo Mary toda a Física das cores, seria obrigada a conhecer o vermelho e o azul, sem nunca os ter visto. Um filósofo que ignora ser o conhecimento—todo ele—fruto da elaboração mental do que chega à "caixa dos pirolitos" através dos sentidos, que devia ser incorporado no Regimento de Cavalaria da GNR na qualidade de cavalgadura, faz escola e é citado nos livros de Filosofia. Pior, só François Hollande!
Assim se faziam ainda teorias no Século XX e continuam a fazer-se no corrente, seguramente. O Homo sapiens é um espectáculo!
.

Sem comentários:

Enviar um comentário