quarta-feira, 15 de maio de 2013

QUEM SOU EU ?

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Ando dado à ficção científica! Falava ontem de transplantes de cérebro e outras coisas esotéricas e hoje vou falar de mais uma laracha tipo Guerra das Estrelas. Admitamos que há uma máquina capaz de copiar, átomo por átomo, o nosso corpo e reproduzi-lo integralmente onde quisermos—por exemplo, estamos em Portugal e ela pode pôr uma cópia na Lua (onde não está Vítor Gaspar!). A partir de tal momento, há dois "eus" completamente iguais. Mas cada um vai viver diferentemente, em particular porque na Lua não está Gaspar. Ao fim de algum tempo, com vivências diferentes—nomeadamente um sem a ameaça de que vai ser esfolado com impostos e outro à espera de ser depenado—começam a divergir.
A pergunta é: um ano mais tarde, qual é o verdadeiro eu? A resposta parece evidente: é o que não foi copiado, o original, o template. Salvo o devido respeito por tal opinião, ela é burocrática, enviesada por hábitos de legislação e porque temos a cabeça "feita" por tradições culturais. Na realidade, os dois "eus" são verdadeiros, como dizia Ortega y Gasset: eu sou eu e a minha circunstância—a circunstância do primeiro é Portugal de Gaspar e a do segundo é a Lua, onde Gaspar ainda não cobra impostos.
Ou seja, é o eu aleatório, dependendo de factores externos que não controlamos e  estamos entregues ao acaso? De certo modo, assim parece. Um militar garboso, em criança roubou um vaso com uma flor. Já militar, teve comportamento heroico na guerra e foi condecorado. Mais tarde seria promovido a general. Até à condecoração, pensava muito no roubo de criança, marcando isso o seu eu. Depois, pensava menos, mudando ligeiramente o eu. E, quando chegou a general, só pensava na condecoração—o corpo era o mesmo, encéfalo incluído, mas o eu era outro. A sua circunstância havia mudado.
Não haverá grande determinismo ontológico no eu. Somos o que nascemos, modelados pela experiência, onde estão incluídos factores tão vastos como a educação, a cultura do recanto onde vivemos, a tradição religiosa e por aí fora. Nascemos com um património que é o eu original e morremos com outro muito diferente e imprevisível à partida.
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