Às terças-feiras,
quando me ligo à Internet, o primeiro que
faço, quase sofregamente, é procurar o "Diário de Notícias", e nele a crónica
do Dr. Soares, verdadeiro alimento espiritual para os portugueses. Hoje, são
1.084 palavras, mas não quaisquer palavras. As palavras do Dr. Soares são
sempre palavras quase de salvação—não abre com chave de ouro, não fecha com
chave de ouro: é tudo ouro!
Impossível
analisar em pormenor todo o texto, dada a sua imprevisibilidade, extensão e originalidade.
É integralmente novo, nunca antes dito e a roçar o génio. Face a tal limitação, resta-me
pedir aos leitores que leiam eles próprios a peça. Mas duas coisas eu constato:
i) Logo a abrir,
diz o senador que o empobrecimento é geral, com as excepções conhecidas dos
adeptos do Governo, porque esses vivem bem. Não sendo o Dr. Soares,
reconhecidamente, adepto do Governo, diz a Lógica que o Dr. Soares está
empobrecido e vive mal. Também tenho sido bastante afectado pela austeridade,
mas, ainda assim, estou disponível para contribuir com alguma coisinha a fim de
minorar as dificuldades porque estará a passar o Dr. Soares.
ii) Depois,
verifico com alegria que o Dr. Soares está a transformar-se num fiel devoto do
Papa Francisco, quando não da religião de que ele é o grande guia. Não perde
oportunidade para o citar e invocar. O senador sente, talvez, aproximar-se a
hora da despedida e quer reconciliar-se com o Além, eventualmente marcar um
camarote no outro mundo. Como nunca foi de vistas curtas, especialmente em
matéria de camarotes, vai às origens: não lhe interessa o prior da sua
freguesia—dirige-se directamente ao sucessor de Pedro, representante de Cristo na Terra, à
pedra sobre que está edificada a sua Igreja
e que tem as chaves do Reino dos Céus: «Tu es Petrus, et super
hanc petram aedificabo Ecclesiam meam et tibi dabo claves regni Caelorum».
De comover até à lágrima!
.

Sem comentários:
Enviar um comentário