domingo, 14 de julho de 2013

FALTA DE SENSIBILIDADE SOCIAL !

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A barafunda política distraiu os portugueses de um drama de proporções arrepiantes. Falo, como deveria ser escusado dizer, da luta dos funcionários da Carris contra o capitalismo selvagem e a favor do corte de cabelo à borla. Passo a explicar.
A Carris, muito naturalmente e com base na cláusula 69.ª do contrato colectivo de trabalho, disponibiliza uma rede de barbearias que presta serviços gratuitos aos seus funcionários, activos ou reformados. Infelizmente, essa conquista histórica do operariado está em perigo dado que, pelo menos segundo o testemunho do PCP, a empresa fechou ou tenciona fechar as barbearias em causa, vergonha que levou o grupo parlamentar daquele partido a rabiscar um requerimento justamente indignado. Por seu lado, o Ministério da Economia garante que as barbearias se encontram operacionais e prontas a aparar a mais densa guedelha. Entretanto, e na aparente impossibilidade de se verificar se as barbearias existem ou não, os sindicatos da Carris propõem um compromisso: a administração desiste de garantir os cuidados capilares e começa a pagar 12 euros mensais a cada funcionário para que este trate do penteado onde entender. A concretizar-se, os carecas sairão beneficiados do arranjinho. Mas o arranjinho abre portas a inomináveis atentados aos direitos adquiridos.
Hoje, corta-se no cabelo, perdão, no barbeiro. E amanhã? Não estará para breve o momento em que a sanha do lucro e o desprezo pelo ser humano imponham aos assalariados dos transportes públicos o corte nas manicuras, nas esteticistas e nos profissionais de aromaterapia? Alguém acredita que um curso de reiki custa meros 12 euros? Por este andar, ainda veremos maquinistas da CP a financiar as próprias aulas de ioga e fiscais da Metro do Porto a contrair dívidas à banca de modo a frequentar as ancestrais sessões de depilação. Enquanto não compreendermos que o esboroar do Estado social não é apenas uma questão económica mas também moral, não vamos lá. O povo está pelos cabelos, para cúmulo desgrenhados.
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Alberto Gonçalves in "Diário de Notícias"
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