A barafunda
política distraiu os portugueses de um drama de proporções arrepiantes. Falo,
como deveria ser escusado dizer, da luta dos funcionários da Carris contra o
capitalismo selvagem e a favor do corte de cabelo à borla. Passo a explicar.
A Carris, muito
naturalmente e com base na cláusula 69.ª do contrato colectivo de trabalho,
disponibiliza uma rede de barbearias que presta serviços gratuitos aos seus
funcionários, activos ou reformados. Infelizmente, essa conquista histórica do
operariado está em perigo dado que, pelo menos segundo o testemunho do PCP, a
empresa fechou ou tenciona fechar as barbearias em causa, vergonha que levou o
grupo parlamentar daquele partido a rabiscar um requerimento justamente
indignado. Por seu lado, o Ministério da Economia garante que as barbearias se
encontram operacionais e prontas a aparar a mais densa guedelha. Entretanto, e
na aparente impossibilidade de se verificar se as barbearias existem ou não, os
sindicatos da Carris propõem um compromisso: a administração desiste de
garantir os cuidados capilares e começa a pagar 12 euros mensais a cada
funcionário para que este trate do penteado onde entender. A concretizar-se, os
carecas sairão beneficiados do arranjinho. Mas o arranjinho abre portas a
inomináveis atentados aos direitos adquiridos.
Hoje, corta-se no
cabelo, perdão, no barbeiro. E amanhã? Não estará para breve o momento em que a
sanha do lucro e o desprezo pelo ser humano imponham aos assalariados dos
transportes públicos o corte nas manicuras, nas esteticistas e nos
profissionais de aromaterapia? Alguém acredita que um curso de reiki custa
meros 12 euros? Por este andar, ainda veremos maquinistas da CP a financiar as
próprias aulas de ioga e fiscais da Metro do Porto a contrair dívidas à banca
de modo a frequentar as ancestrais sessões de depilação. Enquanto não
compreendermos que o esboroar do Estado social não é apenas uma questão
económica mas também moral, não vamos lá. O povo está pelos cabelos, para
cúmulo desgrenhados.
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Alberto Gonçalves in "Diário de Notícias"
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