Teleologia é um palavrão filosófico com pés de barro
porque não resiste a uma análise sumária. É composto a partir das raízes gregas
telos, que significa fim, ou objectivo, e logos—estudo, teoria ou conhecimento.
Assim, teleologia refere-se ao estudo, teoria ou conhecimento do fim das
coisas, ou seja, para que servem. Quando digo que a vassoura serve para varrer
e o penico para fazer xixi, estou a emitir um parecer teleológico.
Falo nisto porque o homem tem um viés mental teleológico.
Por exemplo, diz que as pernas servem para andar, ou que o nariz é para
cheirar. E não é isto verdade? Não é. O homem anda da forma que anda porque tem
pernas e cheira porque tem receptores do olfacto no nariz.
Curiosamente, tal viés não se aplica a tudo. Ninguém
pergunta, por exemplo, para que serve uma estrela. É uma questão irrelevante: a
estrela existe porque existe, porque está lá e pronto. O Sol não existe para aquecer
e iluminar a Terra. O Sol existe tout court e aquece e ilumina a Terra. Também ninguém
pergunta para que serve o ácido sulfúrico. Aceita-se que existe e usa-se quando
dá jeito.
Mas, quando começamos a avançar em direcção a nós, o viés
agrava-se. Com outros seres vivos, mesmo os mais simples, começamos a asnear.
Dizemos que as bactéria flageladas têm flagelos "para" se deslocarem
e não que se deslocam porque têm flagelos; ou que os símios sobem bem às árvores
porque fazem oponência nos pés, subentendendo que o pé é assim "para"
subirem às árvores. Darwin explicou bem como foi.
Quando chegamos a nós, o exagero é uma lástima, a ponto
de se ter considerado durante séculos que a actividade mental nos foi dada como
bem ontológico, sem relação com o corpo. Isto é, a alma serviria para pensar e
observar os preceitos religiosos. Era o dualismo de Descartes oriundo da Filosofia grega (a alma capitão do navio corpo).Só em tempo relativamente recente se admitiu
que a actividade psíquica é um produto do encéfalo—pelo menos—e a alma uma qualidade ontológica,
diferente do psiquismo, que existe para os crentes e não existe para os outros.
O viés do homem em relação a si próprio é uma
manifestação flagrante de antropocentrismo. Ainda não nos libertámos da ideia
de que tudo foi feito para nós e para o nosso bem e de que somos o centro e
razão de ser do universo. Não digo que não seja assim. Ninguém pode demonstrar
que não é. Mas o inverso também é verdade.
..

Sem comentários:
Enviar um comentário