terça-feira, 9 de julho de 2013

O VIÉS ANTROPOCÊNTRICO

.

Teleologia é um palavrão filosófico com pés de barro porque não resiste a uma análise sumária. É composto a partir das raízes gregas telos, que significa fim, ou objectivo, e logos—estudo, teoria ou conhecimento. Assim, teleologia refere-se ao estudo, teoria ou conhecimento do fim das coisas, ou seja, para que servem. Quando digo que a vassoura serve para varrer e o penico para fazer xixi, estou a emitir um parecer teleológico.  
Falo nisto porque o homem tem um viés mental teleológico. Por exemplo, diz que as pernas servem para andar, ou que o nariz é para cheirar. E não é isto verdade? Não é. O homem anda da forma que anda porque tem pernas e cheira porque tem receptores do olfacto no nariz.
Curiosamente, tal viés não se aplica a tudo. Ninguém pergunta, por exemplo, para que serve uma estrela. É uma questão irrelevante: a estrela existe porque existe, porque está lá e pronto. O Sol não existe para aquecer e iluminar a Terra. O Sol existe tout court e aquece e ilumina a Terra. Também ninguém pergunta para que serve o ácido sulfúrico. Aceita-se que existe e usa-se quando dá jeito.
Mas, quando começamos a avançar em direcção a nós, o viés agrava-se. Com outros seres vivos, mesmo os mais simples, começamos a asnear. Dizemos que as bactéria flageladas têm flagelos "para" se deslocarem e não que se deslocam porque têm flagelos; ou que os símios sobem bem às árvores porque fazem oponência nos pés, subentendendo que o pé é assim "para" subirem às árvores. Darwin explicou bem como foi.
Quando chegamos a nós, o exagero é uma lástima, a ponto de se ter considerado durante séculos que a actividade mental nos foi dada como bem ontológico, sem relação com o corpo. Isto é, a alma serviria para pensar e observar os preceitos religiosos. Era o dualismo de Descartes oriundo da Filosofia grega (a alma capitão do navio corpo).Só em tempo relativamente recente se admitiu que a actividade psíquica é um produto do encéfalo—pelo menos—e a alma uma qualidade ontológica, diferente do psiquismo, que existe para os crentes e não existe para os outros.
O viés do homem em relação a si próprio é uma manifestação flagrante de antropocentrismo. Ainda não nos libertámos da ideia de que tudo foi feito para nós e para o nosso bem e de que somos o centro e razão de ser do universo. Não digo que não seja assim. Ninguém pode demonstrar que não é. Mas o inverso também é verdade. 
..

Sem comentários:

Enviar um comentário