terça-feira, 9 de julho de 2013

UM FETICHE CHAMADO LIVRO

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Fetiche, do francês fétiche, por sua vez do português feitiço, do latim facticius, é uma imagem ou objecto simbólico com várias acepções, desde sexuais a culturais e religiosas. Vem isto a propósito de um artigo publicado na revista "The New Yorker", que acabo de ler, sobre o livro em papel, o livro electrónico e o livro como fetiche.
Há aqueles para quem o livro clássico, em papel encadernado, é um fetiche literário incontornável, sendo o prazer da leitura resultado de mistura em doses variáveis do gosto pelo livro objecto e apreço pelo seu conteúdo. São o cheiro da tinta mesclado com o do papel, as propriedades físicas deste—havendo gostos para todo o tipo—a forma e dimensão dos tomos, a capa dura e a capa mole e por aí fora, que se juntam em proporções variáveis conforme o cidadão leitor, com o estilo do autor e a natureza da matéria tratada na palavra.
Compreendo os amantes do livro fetiche e sou dos que consideram serem os livros ornamentais e não haver imagem mais ilustrativa da cultura, do saber e da actividade intelectual do homem que a fotografia de uma grande e bela biblioteca, como a do Vaticano, por exemplo. Mas também gosto de caleças e tipóias e não me desloco a Cascais sentado no banco duma charrete, com as rédeas na mão a governar uma parelha de cavalgaduras.
Tudo tem seu tempo e lugardigo eue não renuncio à facilidade e comodidade de consultar excertos dos livros na Net, com o rabo confortavelmente sentado na almofada, podendo comprá-los em segundos com um clique e lê-los de empreitada durante a noite que se segue. E de libertar o espaço físico que ocupariam em casa. E de os levar comigo para qualquer lado sem carregar mais que o peso do aparelho que permite a sua leitura.
Eça de Queirós não gostaria que só apreciássemos o seu brilhante estilo quando embrulhado em edição mais ou menos requintada do "Círculo dos Leitores". Os estilos de Eça, de Vieira, de Camilo, de Ramalho, valem por si, sejam transmitidos impressos em papiro, por alfabeto Morse, em Braille, ou através de bits ou bytes, ou uma cangalhada dessas.
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