Imagine-se um barco salva-vidas, com a lotação de 50
pessoas completa, no meio dum naufrágio e com a água em volta cheia com
centenas de pessoas sem barco. Na melhor das hipóteses, o salva-vidas levará
mais 10 pessoas, com muito risco. Que fazer?
Há, pelo menos, duas hipóteses. A primeira é não admitir
mais ninguém, aumentando a hipótese de se salvarem as 50. A segunda é deixar subir quem quiser para a embarcação
até esta se afundar e morrerem todos. Justiça completa, desastre total.
A história original não é bem assim, mas esta é a essência
e uma metáfora da autoria do ecologista Garrett Hardin chamada "O Salva-Vidas
Terra". Como se torna evidente, Hardin compara a situação do naufrágio com
o que se passa no mundo, nomeadamente no que respeita à imigração. Vem a
propósito recordá-la, a seguir à tragédia—mais uma—de Lampedusa. Segundo ele, a
entrada descontrolada de imigrantes na Europa, rapidamente afundaria uma
população quase estagnada no continente, criando o quadro referido de justiça
completa e desastre total.
Por outro lado, manter a Europa fechada como uma
fortaleza seria por sua vez a injustiça total. No meio está a virtude mas, se
há coisa difícil de atingir, essa coisa é o meio, no caso a imigração controlada. Mostra e ensina a experiência
que os extremos se comportam como pólos magnéticos—é quase impossível resistir
à atracção de um deles.
Hardin era um pensador original e pouco ortodoxo. Dizia,
por exemplo, que países pobres a receber
ajuda de países ricos criam cultura de dependência e nunca mais fazem o
necessário para serem auto-suficientes. E também que o agricultor a cultivar a sua terra, trata-a bem e procura mantê-la fértil por muitos anos.
Com a terra colectiva, o cuidado de evitar o esgotamento desaparece e a produtividade morre. A este
processo, que considerava inevitável, chamava "a tragédia dos
comuns". 

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