quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A TRAGÉDIA DOS COMUNS

.

Imagine-se um barco salva-vidas, com a lotação de 50 pessoas completa, no meio dum naufrágio e com a água em volta cheia com centenas de pessoas sem barco. Na melhor das hipóteses, o salva-vidas levará mais 10 pessoas, com muito risco. Que fazer?
Há, pelo menos, duas hipóteses. A primeira é não admitir mais ninguém, aumentando a hipótese de se salvarem as 50. A segunda  é deixar subir quem quiser para a embarcação até esta se afundar e morrerem todos. Justiça completa, desastre total.
A história original não é bem assim, mas esta é a essência e uma metáfora da autoria do ecologista Garrett Hardin chamada "O Salva-Vidas Terra". Como se torna evidente, Hardin compara a situação do naufrágio com o que se passa no mundo, nomeadamente no que respeita à imigração. Vem a propósito recordá-la, a seguir à tragédia—mais uma—de Lampedusa. Segundo ele, a entrada descontrolada de imigrantes na Europa, rapidamente afundaria uma população quase estagnada no continente, criando o quadro referido de justiça completa e desastre total.
Por outro lado, manter a Europa fechada como uma fortaleza seria por sua vez a injustiça total. No meio está a virtude mas, se há coisa difícil de atingir, essa coisa é o meio, no caso a imigração controlada. Mostra e ensina a experiência que os extremos se comportam como pólos magnéticos—é quase impossível resistir à atracção de um deles.  
Hardin era um pensador original e pouco ortodoxo. Dizia, por exemplo, que países pobres a receber  ajuda de países ricos criam cultura de dependência e nunca mais fazem o necessário para serem auto-suficientes. E também que o agricultor a cultivar a sua terra, trata-a bem e procura mantê-la fértil por muitos anos. Com a terra colectiva, o cuidado de evitar o  esgotamento desaparece e a produtividade morre. A este processo, que considerava inevitável, chamava "a tragédia dos comuns".  
.
.

Sem comentários:

Enviar um comentário