De forma pateticamente megalómana, na última entrevista
de Passos Coelho na televisão—evento a cheirar aos velhos combates de luta
livre no Parque Mayer, onde tudo estava combinado—a individualidade teve esta grande tirada: "Se
eu falhar a minha missão, é o País
que falha." Coisa a cheirar a Shakespeare!
Não sei que mais disse, pois tive o prazer de não
assistir, mas estou informado pela comunicação social quanto baste para me
felicitar por não ter visto nem ouvido. Queria, contudo, comentar a citada frase, pelo que informa
sobre a personalidade do Primeiro-Ministro. Quem assim fala sente-se enviado da
Providência a cumprir tarefa quase sobrenatural, ou lá perto, o que é
preocupante. O homem tem uma missão e o
País está dependente da sua mestria para se salvar. Tal e qual!
Pacheco Pereira, que é maldoso e não embarca em conversas
de embalar, é mais prosaico e tem outra explicação. Hoje, no
"Público", escreve assim a propósito:
[...] Toda esta
exibição de “o meu fracasso é o
fracasso de Portugal” pode não passar
de incutir medo, pressionar o Tribunal
Constitucional ou de, pura e simplesmente,
preparar uma saída baixa vitimizada
caso o Tribunal não deixe passar qualquer
lei com incidência orçamental.
Suspeito aliás, e
não é de agora, que este plano de
enviar legislação claramente inconstitucional
para o Tribunal e receber o
respectivo “não”, se destina a atirar para o Tribunal o ónus do falhanço próprio e preparar uma demissão do Governo. [...]
Não está mal visto, não senhor. Isto é, ou o homem se
sente um enviado, ou o homem é um sacana. Pensando bem, vou mais para a teoria
de Pacheco Pereira.
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