Muitos mamíferos adultos não conseguem digerir a lactose, principal hidrato de carbono do leite. O homem antigo também não. Já falámos em tempos disso, admitindo-se ter sido essa limitação que levou à fermentação
do leite e à consequente produção do queijo.
Hoje pensa-se que a aptidão de digerir a lactose se
desenvolveu nos últimos 10 mil anos, em várias partes do mundo; sobretudo no
Norte da Europa, onde a radiação solar é fraca. A síntese da Vitamina D na pele
depende da exposição à luz do Sol e a vitamina é indispensável para a absorção
do cálcio no intestino, cálcio necessário para muitas coisas, especialmente nos
ossos. Teriam sido os nórdicos os primeiros que, através da selecção natural,
primeiro desenvolveram populações de adultos com lactase, enzima necessária
para a digestão da lactose.
Estudos recentes, realizados na Península Ibérica, onde a
radiação solar era e é bastante mais intensa, mostraram que em fósseis humanos
não havia ainda o gene da produção da lactose activo. Mas outra investigação posterior,
cujos resultados foram publicados na revista "Molecular Biology and
Evolution", revela haver actualmente elevada percentagem de espanhóis com o gene da
produção de lactase activo. Isto é, em cerca de 7 mil anos, o gene desenvolveu-se—por
selecção, naturalmente.
E porque aconteceu tal, se havia sol com fartura?
Provavelmente, a fominha dos anos de más culturas levava os espanhóis, e também os portugueses, a alimentarem-se de lacticínios. Os capazes de
digerir alguma coisa a lactose, foram ficando, reproduzindo-se. Muitos dos
outros "despediram-se". E parte dos capazes de o fazer podem ter
resultado do cruzamento com imigrantes de outras terras onde o gene já estava
activo.
Eis porque podemos beber umas canecas de leite neste
recanto onde a terra se acaba e o mar começa e Febo repousa no oceano. Excepto
os pensionistas—bem entendido—que, segundo o Dr. Soares, estão todos a morrer à
fome. Tal e qual.

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