João César das Neves é um intelectual que respeito e
acompanho semanalmente no "Diário de Notícias". Concordo com muito do
que diz porque não é demagógico e combate esse horrível ponto de vista de que
as pessoas devem ter aquilo a que têm direito, sendo aquilo a que têm direito uma
série de práticas e objectos inúteis, dispensáveis e parolos, que levam ao
endividamento injustificado, mesmo à privação de coisas bem mais importantes.
O pensamento de João César das Neves é influenciado pelas
suas convicções religiosas, donde não vem mal nenhum e é até louvável, porque
coerente. Mas convém não levar as coisas longe de mais como, segundo parece,
faz hoje, ao falar da actual crise. A dado passo, escreve:
"Desde o Iluminismo um punhado de ideologias tenta defender a tese ingénua de que a realidade se limita ao que vemos e tocamos. Num esforço hercúleo de autodecepção, impõem a limitação do homem às funções vitais, recusando qualquer aspecto transcendente. A atitude tem razões louváveis e pragmáticas, defendendo a justiça social e direitos humanos contra a hipocrisia de muitos religiosos"—até aqui, tudo bem.
"Desde o Iluminismo um punhado de ideologias tenta defender a tese ingénua de que a realidade se limita ao que vemos e tocamos. Num esforço hercúleo de autodecepção, impõem a limitação do homem às funções vitais, recusando qualquer aspecto transcendente. A atitude tem razões louváveis e pragmáticas, defendendo a justiça social e direitos humanos contra a hipocrisia de muitos religiosos"—até aqui, tudo bem.
Mas diz adiante:
"Quem vive só para o sucesso e prosperidade, na recessão perde a razão de viver. Quem apenas conta com a justiça humana assume vingança ou impunidade. Quem não tem a perspectiva da eternidade só pode ver uma crise financeira como o inferno. O único resultado plausível é o desespero".
"Quem vive só para o sucesso e prosperidade, na recessão perde a razão de viver. Quem apenas conta com a justiça humana assume vingança ou impunidade. Quem não tem a perspectiva da eternidade só pode ver uma crise financeira como o inferno. O único resultado plausível é o desespero".
E depois:
"Até os não crentes podem compreender quão diferente a mesma desgraça surge a uma pessoa verdadeiramente religiosa. Alguns anos de aperto parecem muito pouco a quem se dirige à vida eterna. Sofrer na companhia de uma Providência benevolente, que acompanha amorosamente cada passo da nossa vida, permite afrontar sem medo os perigos mais assustadores. O testemunho dos mártires de todos os tempos é um consolo para quem apenas enfrenta falência ou desemprego. A certeza de que o Deus de amor terá a última palavra em todos os assuntos humanos liberta-nos de dúvidas ou temores. Da sua fé, o crente obtém a liberdade face aos acasos, a segurança nas tribulações e, acima de tudo, o bem mais raro nas crises financeiras, a esperança".
João César das Neves, face aos dramas sociais a que
assistimos em Portugal, fala das virtudes do martírio aos desempregados, aos falidos e aos desesperados. Nem a Igreja, com
a sua doutrina social, se atreveria a dizer uma coisa assim. Que bom seria se
João César das Neves não fosse mais
papista que o Papa!"Até os não crentes podem compreender quão diferente a mesma desgraça surge a uma pessoa verdadeiramente religiosa. Alguns anos de aperto parecem muito pouco a quem se dirige à vida eterna. Sofrer na companhia de uma Providência benevolente, que acompanha amorosamente cada passo da nossa vida, permite afrontar sem medo os perigos mais assustadores. O testemunho dos mártires de todos os tempos é um consolo para quem apenas enfrenta falência ou desemprego. A certeza de que o Deus de amor terá a última palavra em todos os assuntos humanos liberta-nos de dúvidas ou temores. Da sua fé, o crente obtém a liberdade face aos acasos, a segurança nas tribulações e, acima de tudo, o bem mais raro nas crises financeiras, a esperança".
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