Santo Agostinho escreveu na obra "Confissões", publicada no Século IV, que se ninguém lhe perguntava o que é o tempo, ele sabia o que é; mas se tinha de responder a alguém que perguntava o que é o tempo, não sabia responder.
E acrescentava que o tempo tem passado, presente e futuro,
interrogando-se depois como pode dizer o que é o passado se ele já não é, ou
dizer o que é o futuro, se ele ainda não é?
É jogo de palavras? Parece; mas traduz a eterna dificuldade
em definir a noção de tempo. Quando perguntamos que horas são, mesmo com o
relógio mais evoluído da humanidade, nunca sabemos a hora certa. Sendo a
velocidade da luz finita, bem como a velocidade da condução dos impulsos
eléctricos nos nervos dos órgãos dos sentidos, quando o informação chega
ao córtex cerebral, já está desactualizada—a resposta diz-nos que horas eram
algum tempo antes, mas não agora.
Talvez a imagem que melhor representa o tempo seja a da
ampulheta, com o tempo a passar sob a forma de um fio de grãos de areia, sendo
o passado o contentor superior que se esvai e o futuro o inferior que se enche
para depois se esvaziar também, quando a ampulheta for invertida.
Para complicar, Einstein e a sua sinistra lei da
relatividade vieram dizer-nos que o tempo passa mais devagar no comboio em
andamento que no comboio parado na estação. Já viram isto? Há pachorra?
O tempo cura todas as feridas mas, ironicamente, é ele que
nos mata. E Benjamin Franklin—suponho—dizia que o tempo é dinheiro e nós passamos um
terço da vida a dormir, ou seja, a deitar dinheiro ao lixo.
Tem uma qualidade superior o tempo: é matéria de primeira água para jogos florais. Jorge Luís Borges dizia que é um rio que nos leva, mas nós
somos o rio; é um tigre que nos destrói, mas nós somos o tigre; é o fogo que
nos consome, mas nós somos o fogo.
Preferível nunca esclarecer objectivamente o que é para
não destruir boa parte da arte, especialmente a literatura.
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