terça-feira, 6 de março de 2018

NÃO AOS VIDENTES

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Há mais de 100 anos Friedrich Nietzsche escreveu que, sem a constante falsificação do mundo por meio dos números, o homem não poderia viver. Não conheço muitas ideias com tanta clarividência e senso como esta; hoje mais que nunca. O mundo actual está condicionado pelos números até ao absurdo e irracional. Pitigrilli, com inspirado sentido de humor e ironia, dizia que a estatística é a ciência que explica porque, se tu comeres um frango e eu não comer nenhum, ambos comemos meio frango. A caricatura é perfeita e o problema é ser um retrato fiel do mundo actual.
Tudo é convertido em números abstractos, sem critério e sem atender a Pitigrilli. É a quantidade de água que chove por metro quadrado, sem saber se é na eira ou no nabal; o volume de vendas do bacalhau sem conhecer quem o come; o número de compras de livros do Zezito sem dizer quantos foram para a lixeira municipal ainda no embrulho da livraria; ou quantas vezes foi o Governo à Assembleia da República sem explicar o que quer que fosse de importante para o povão. Só números completamente abstractos e mais nada.
Vem isto a propósito de prognósticos porque estes são baseados em tais números. E não estou a falar em prognósticos sobre a "bola", porque não têm qualquer interesse, mas nos prognósticos clínicos. 

Hoje li o seguinte trecho num artigo: "Quando tinha 3 anos, disseram-me que a minha irmã, nascida com paralisia cerebral, distrofia muscular e outras doenças congénitas, tinha 95% de probabilidades de morrer antes de fazer um ano. A minha irmã sobreviveu a todas as expectativas ano após ano, mas o espectro do prognóstico pairou sobre a família para sempre.
O prognóstico médico é baseado em probabilidades decorrentes de observações anteriores e atingiu hoje aspectos sinistros. Há um exame que consiste em determinar a sequência do genoma, ou seja, avaliar os genes e a sua interacção, sobretudo em crianças, e permite determinar a probabilidade de vir a sofrer desta ou daquela doença. Probabilidade é isso mesmo — pode ocorrer ou não. Já se viu a enormidade que é lançar o espectro de doença grave, até gravíssima, numa criança?
Há quem o faça e sugira. Para dado de confirmação de um diagnóstico admite-se. Para puro "exercício de vidente de feira" é uma enormidade e um crime que devia ser punido pela lei.

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