sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DARWIN NÃO CHEIROU LISBOA

.
.

O sentido do olfacto tem grande importância na maior parte dos mamíferos, seja porque adverte do perigo, como nos ruminantes; seja porque permite a outros descobrir presas, como nos carnívoros; seja porque serve aos dois fins como no javali. Mas são poucos os serviços que presta ao homem selvagem, em que está mais desenvolvido que nas raças civilizadas. Nem os adverte do perigo, nem os guia até onde possam encontrar alimento; não impede os esquimós de dormir nas atmosferas mais fétidas, nem muitos selvagens de comer carne meia podre. Os que acreditam no princípio da evolução gradual não admitirão facilmente que este sentido, tal como existe hoje, tenha sido adquirido originalmente pelo homem. Sem dúvida que herdou esta faculdade débil e rudimentar de algum antecessor antiquíssimo a quem era útil e que usava continuamente. Isto permite-nos perceber porquê; como observa justamente Mandsley, o sentido do olfacto está no homem “notavelmente ligado a recordar a ideia ou a imagem das cenas e dos lugares esquecidos”; porque nos animais que têm este sentido muito desenvolvido, como os cães e os cavalos, observamos também a associação evidente entre recordações de pessoas e lugares e o seu cheiro.

O transcrito acima é parte do livro de Darwin cujo título podemos traduzir por “A Origem do Homem”. No capítulo respectivo, o autor fala de órgãos e funções vestigiais do H. sapiens, herdadas de antecessores animais para quem eram úteis. Pensando bem, contudo, fica a dúvida se o olfacto é assim tão supérfulo nos dias actuais. Sem funções tão vitais como a audição ou a visão, e porque se verifica que a anosmia não prejudica notoriamente a vida do cidadão, temos de reconhecer que se pode viver sem olfacto, mas não é a mesma coisa. O que vale o cheirinho de um saboroso repasto, do bom perfume, da maresia e tanta coisa mais?
Darwin era um cientista preocupado com os grandes problemas da biosfera e simplificava: para ele, o cheirinho do craveiro numa água-furtada, ou a Lisboa – que cheira bem, segundo Amália – não interessavam. Só queria era demonstrar a nossa origem em chimpanzés que nunca cheiraram craveiros das águas-furtadas nem a capital do (ex)Império.
.
Eh, eh, eh...
.

Sem comentários:

Enviar um comentário