Continentes e oceanos—terra e água—são duas realidades que,
compreensivelmente, sempre dominaram parte
importante do pensamento do homem desde as mais antigas civilizações. A configuração
actual da superfície do planeta não tem semelhança com o que foi há
relativamente pouco tempo, se usarmos a bitola geológica para este. Por exemplo, só cerca
do ano 5.500 AC a Inglaterra se tornou numa ilha. O território estava ligado à
Europa e foi no fim da última era glaciar, com a fusão do gelo e a subida do
nível do mar, que se separou do continente. A descoberta da grande planície desaparecida,
agora chamada Doggerland, é uma das mais extraordinárias histórias
científicas da última década.
Sempre se ouviram
histórias de civilizações submersas ou engolidas pelo mar de que a Atlântida é
exemplo maior. Mas do que queria falar mesmo era de dilúvios, sendo o da Bíblia
o mais conhecido para quase todos, mas—inesperadamente para mim, pelo menos—é
apenas mais um da tradição cultural. Os dilúvios assentaram arraiais
no encéfalo do Homo sapiens desde as primeiras civilizações que tinham de lidar com
grandes cheias. Primeiro na Mesopotâmia (terra entre os rios) e depois nos deltas do
Nilo, Rio Amarelo e Rio Indo, onde a água era fonte simultânea de vida e destruição.
A primeira versão de
dilúvios e arcas veio da Mesopotâmia. É a história de um homem justo chamado Utnapishtim, instruído
por Deus para construir uma arca a fim de sobreviver a um dilúvio—ele e um casal
de cada animal—contada na Epopeia de Gilgamish, mil anos antes da Bíblia. Na mitologia
grega, Noé era Deucalião, filho de Prometeu. E há um Noé hindu, outro
inca, e outro polinésio.
É bem possível que a narração bíblica tenha sido
inspirada em versões anteriores, o que não admira. Espanta é como tais
tradições viajaram as distâncias que separavam as origens. Repare-se que há uma
modalidade inca, por exemplo.
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Este texto é um fragmento adaptado de outro mais extenso e muito melhor—naturalmente—publicado no AEON Magazine que pode ler na íntegra aqui.
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Nota - O mapa reproduzido em cima, com a localização da Atlântida, tem o Norte em baixo e o Sul em cima. Norte em cima e Sul em baixo é uma convenção que não vale nada porque sem qualquer justificação racional. Já houve um australiano que pediu à ONU para mudar a orientação dos mapas de século em século. Já falei nisto em tempos. Provavelmente, o senhor está farto de figurar nos mapas de cabeça para baixo!
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