segunda-feira, 18 de outubro de 2010

IGREJA DE CAMPOLIDE EM RUÍNAS


Em 4 de Julho de 2007, há mais de três anos, escrevi num blog já falecido chamado "O Canto do Cirne", o seguinte:

IGREJA DE Sto. ANTÓNIO DE CAMPOLIDE, INFILTRAÇÕES, FUNGOS, RATOS, FERRUGEM, CAVALOS A CORRER, MENINAS A APRENDER, BRANCA DE NEVE, E DA SALOIADA INDÍGENA


Já tinha passado por lá muitas vezes, mas nunca tinha reparado em tal coisa. Chocante! O mais possível!
Do fim da Rua de Campolide, para quem desce, avista-se à direita uma igreja, que até parece janota aos automobilistas apressados. Há dois dias parei o carro próximo e, quando levanto os olhos, vejo a enorme faixa reproduzida na figura acima (agora em baixo). Porque está ali há muito tempo, as letras da linha do meio começam a ficar desmaiadas. Mas dizem o seguinte: “Classificada pelo IPPAR em 1993. Propriedade do Estado Português”.
Esqueci-me daquilo ao que ia e procurei aproximar-me do templo, coisa que não está fácil. Os acessos são um nojo. O aspecto do monumento, com o devido respeito, outro nojo. Tirei algumas fotografias  para divulgar. Muitos lisboetas nunca se terão apercebido da ignomínia que ali está, em área central da cidade.
No site da Paróquia de Campolide, pode ler-se:


A «luta» por obras essenciais na nossa igreja, por acessos e pela definição da propriedade ainda não deu frutos. O desafio é, agora, que mais fazer? Quem conhece quem? Quem conhece «alguém»? Quem pode ajudar? Quem tem ideias de «pressão»? Quem tem ideias, propostas ou soluções?

O jornal “Público” noticiava, em 3 de Maio de 2005:


Uma faixa branca de 18 metros foi ontem pendurada no exterior da Igreja de Santo António de Campolide, em Lisboa, alertando para que o templo, classificado Imóvel de Interesse Público em 1993, está a "cair aos bocados.

É mais um episódio da campanha em prol de um restauro lançada em Janeiro pelo padre João Manuel Nogueira e seus paroquianos e que já passou pelo envio de uma série de pedidos de ajuda à Câmara de Lisboa, ao primeiro-ministro, à ministra da Cultura, à Presidência da República, Cardeal Patriarca e Instituto Português do Património Arquitectónico.
A igreja tem uma história longa. Começou por existir ali uma capela dedicada a Nossa Senhora da Pena, integrada na Quinta da Torre vendida em 1858 para instalar o Colégio de Campolide. Sobre as bases da capela, foi construída a Igreja em apreço, inaugurada em 1884. O interior tinha, e digo tinha porque agora só tem ruínas, estrutura semelhante às igrejas de S. Roque em Lisboa, e de S. Francisco em Évora, e o trabalho de marcenaria das balaustradas era tido como único em Lisboa.
Com o jacobinismo da Primeira República, seguiram-se as trapalhadas conhecidas de apropriação das estruturas religiosas, em manifestação da mais pura tolerância democrática, respeito pelas convicções alheias, blá, blá, blá..., que depois o “Botas” manteve porque também lhe dava jeito, blá, blá, blá... Não interessa!
Em 1938, foi criada a Paróquia de Santo António de Campolide, com sede na Igreja, tendo sido feitas obras de restauro para o efeito. Mas isto passou-se há 69 anos e nunca mais foi pregado um prego. Madeira infiltrada de água chama fungo, depois vêm os ratos, depois os gatos, o ferro por pintar chama a ferrugem, o estuque cai, o telhado abate, e o processo continua até à derrocada final, o que vai ser um espectáculo digno de ver, com muitos bombeiros, polícias, jornalistas, populares, cavalos a correr, meninas a aprender e por aí fora.
O Estado Português, entretanto, não pode fazer nada porque não tem dinheiro. Como poderia ter, se deu 350 mil € a João César Monteiro para produzir a “Branca de Neve”, 648 mil para o filme “Vanitas”, com 493 espectadores (1315 € por espectador), 150 mil para o “Veneno da Madrugada”, com 192 espectadores (693 € por espectador), ou ainda fazer parceria com a Câmara Municipal de Lisboa para subsidiar essa fina flor da boçalidade chamada “Me Cago en Dios”?
Conversa de reaccionário, não?
Claro que é conversa de reaccionário. Melhor dizendo, de quem legitimamente reage contra a falta de senso na hierarquização da política da cultura. A Igreja é uma obra da cultura arquitectónica, pictórica e escultórica que estaria ali para ficar até à consumação dos séculos. A sua preservação é prioritária, mesmo que seja preciso dizer a João César Monteiro, e todos os outros realizadores de filmes e peças de lhes descarregar o autoclismo em cima, que comprem uma câmara de vídeo e façam “obras” para o YouTube, se o Google os aceitar, o que não é líquido. As suas obras "culturais" são efémeras como o resultado do flato.
O poder instituído é saloio porque cede à pressão de peraltas que o intimidam com a ameaça de fazer escândalo por não se protegerem os artistas que julgam ser, ou gostariam de ser. Os jornalistas são igualmente saloios porque lhes servem de caixa de ressonância. E os indígenas portugueses são saloios porque acreditam nos jornalistas. E os nativos que não são saloios, comportam-se como saloios porque têm medo de parecer saloios.
Infelizmente, a saloiada é geral. Já o disse vezes sem conta, mas continuo a fazê-lo porque, sociologicamente e não só, a parolice é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento da Nação.
.
.



.Fotografias de 2007

Sem comentários:

Enviar um comentário