segunda-feira, 20 de junho de 2011

O ESTILO DE QUEM O TEM

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[...] Costumava outrora, como ainda hoje, ir pela manhã ao Passeio Publico, onde há uma meia dúzia de árvores que o bom Deus ali conserva para refrigério dos emparedados da cidade. Tem esse jardim uma qualidade mui apreciável: é uma perfeita solidão, no meio do borborinho, com o bonde à porta, e ao alcance do olhar protector do ministro da justiça; por conseguinte, facilidade de condução, e segurança individual: duas importantes garantias da liberdade. Da verdadeira liberdade prática, e não dessa que anda nos cartazes políticos, para o efeito cénico.
Assim passeia-se ali na maior tranquilidade de espírito. Às vezes descobre-se, é verdade, um urbano, mas estendido em um banco a dormir: o que ainda mais serena-me o espírito. Quando a polícia dorme é sinal de que não há a menor partícula de crime na atmosfera; e assim podemos considerar-nos ao abrigo de um e de outra ao mesmo tempo: do crime e da polícia.
Era ali indefectível um velho seco e relho, o qual se me afigurava a metempsicose de algum poento in-folio da Biblioteca Nacional, que porventura fugira pela janela, e se abrigara à sombra dos castanheiros para livrar-se da fúria arqueológica dos antiquários.
Cortejava-o eu com o respeito devido a um homem que vira dois séculos, e talvez se preparava para ver o terceiro. À minha saudação respondia ele com um modo desconfiado, que eu não levava a mal, por compreender que o indivíduo logrado por três gerações tinha o direito de suspeitar até dos santos.
O meu velho não tomava rapé, nem fumava; aborrecia a política, e não lia gazetas; ajunte-se uma carranca sempre fechada, uma gravata, para não dizer rodilha, que embrulhava-lhe só a metade inferior do rosto, porque à outra lha disputava o chapéu à catimplora; e tudo isso, retocado por uma rabugem veneranda e quase secular.
Bem se vê que encouraçado de tal forma, era o sujeito inabordável por qualquer dos meios indirectos que servem na sociedade para travar um conhecimento. Muito havia eu alcançado em inserir a minha cortesia naquela refolhada antiguidade. [...]
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José de Alencar in “O Garatuja”
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