quarta-feira, 31 de maio de 2017

PONTO DE VISTA E CEGUEIRA

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Arquimedes de Siracusa terá um dia dito: Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio que eu levantarei o mundo. Embora o arrincanço do siracusano fosse teoricamente correcto, não passava de uma boutade, por impraticável. 
O mesmo não acontece com o que vou dizer a seguir: Dêem um ponto de vista a um homem activo ou empreendedor e ele poderá mudar o mundo — para o bem, ou para o mal, acrescento. Já percebeu quem lê de vez em quando O Dolicocéfalo que essa coisa do "ponto de vista" é matéria que lhe dá para pensar.
O ponto de vista exprime-se com facilidade nas imagens — sejam fotografias ou pinturas — que mostram ângulos inesperados da realidade, a que não estamos habituados, ou que até nunca vimos. Mas o ponto de vista que comanda, e tem comandado, a vida é muito mais que um ângulo da visão propriamente dita: é, sobretudo, um modo de relacionar factos históricos, sociais, políticos, económicos, estéticos, esotéricos, religiosos, psicológicos e um incontável conjunto de outros aspectos relacionados com o Homo sapiens e o seu contacto com o habitat.
Por exemplo, Hitler — no livro Mein Kampf — escreve que, se no princípio e durante a Iª Guerra, doze ou quinze mil corruptos hebreus tivessem sido exterminados com gases tóxicos, como aconteceu nas trincheiras a centenas de soldados /trabalhadores alemães, o sacrifício na "frente" não teria sido em vão. E também que o abate dos "fracos" se justifica para dar lugar ao espaço e pureza adequados aos "fortes". É tudo isto uma burrice, dir-se-á e bem, mas era um ponto de vista que veio a dar no que deu.
Pelo contrário, de Gaulle — que não foi exactamente o que se diz, embora um grande homem — ao invés de Pétain, achou que para Hitler só havia uma posição, qual era a de resistir até ao fim pelas armas. Pétain não era um cobarde — já havia dado provas na 1ª Guerra. Pétain tinha, tão somente, um ponto de vista diferente de de Gaulle.
Os exemplos podem ser dados até amanhã de manhã, mas não interessam porque são passado e o que interessa é futuro. E este depende hoje duma aparente "besta encartada" que responde por Trump — um tosco ignorante, pouco sério e sem escrúpulos, que acha não ser legítimo infringir porque um picuínhas desconhecido decretou que isso deve levar à cadeia. O futuro da parte mais evoluída da Humanidade a Ocidente está hoje dependente do ponto de vista de um exemplar decrépito, trafulha  e patético do Homo sapiens — dá que pensar como se chegou a isto, através do ponto de vista colectivo de uma multidão de americanos! Raios partam tal ponto de vista  mais de cegueira do que de vista.
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