terça-feira, 28 de abril de 2015

ONDE ESTÁ O WALLY ?

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Os terráqueos não são maus tipos—em geral, claro!—mas, quanto a bazófia, não há pachorra. Estão convencidos que são casos únicos no universo, não por serem os maiores nabos (provavelmente são), mas porque se julgam a nata cósmica. Já acreditaram que o universo andava à volta deles e acham-se uns génios porque inventam línguas para se entenderem—além das línguas de bacalhau—e fazem uns foguetinhos que mandam até pouco além de Plutão.
Mesmo que haja vida noutros astros, é diferente a vida tout court—tipo alforreca—e a vida inteligente, ou seja, a vida deles—sentem-se muito superiores à alforreca e isso lhes basta. Moram no centro da Criação, claro está, e têm uma missão, qual é a de encontrar indígenas de outros planetas para os converter e civilizar, ensinando-os a lavar os dentes, a cortar as unhas dos pés, a fumar charros e a beber canecas de Guinness.
É claro que sempre houve desmancha-prazeres, outra das simpáticas características do terráqueo, e um dia veio um tipo chamado Copérnico dizer que eram eles que andavam à volta do Sol; e depois outro que a Terra era um pequeno planeta dum minúsculo Sistema com uma estrela quase insignificante, a viver na periferia duma galáxia de terceira ordem e por aí fora. Foi um banho de água fria. Afinal, somos quase uma trampa cósmica, disse o terráqueo. Quase???!!!... Ó amigo, uma trampa completa—não tens nada de especial, além do Mourinho, digo-te eu.
Este planeta não é privilegiado coisa nenhuma, pois vive regulado pelas leis naturais que regem todo o mundo, leis mais rigorosas que as da Assembleia da República, apesar destas contemplarem a ética republicana. A sanduíche de atum que se comeu ao almoço deu-nos volta à barriga não porque houvesse um plano para nos prejudicar, ou porque batemos na avó, mas porque estava marada e deu caganeira—mais nada. Se estiver marada, dá sempre caganeira, seja ao terráqueo, seja ao marciano, a menos que este tenha intestino inox. Chama-se a isto o princípio da mediocridade, nome que não abona muito o habitante do geodo onde vivemos. O mundo consiste em coisas que obedecem a regras. Se perguntamos porquê isto, ou porquê aquilo, a resposta é sempre a mesma: porque o universo e as leis da natureza são assim—seja na Terra, onde habita o Homo sapiens; em Marte, onde era suposto habitarem os marcianos, mas parece que não; em Saturno, onde há gente soturna; e em Plutão lar dos plutocratas (ou plutanenses?).
Temos uma visão antropocêntrica do universo, mas devemos baixar a bola e fazer jogo mais rasteiro. Os seres humanos insistem em razões delirantes para as coisas, seja a morte de uma criança, um acidente aéreo, um furacão até. Mas, na realidade, estão sujeitos às mesmas leis do grão de areia—nem mais, nem menos: exactamente as mesmas. E repare que o grão de areia não é nada.
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