domingo, 17 de junho de 2018

POLITICAMENTE INCORRECTO

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As línguas humanas são muitas, umas melhores outras piores, mas todas úteis ― daí terem nascido por tudo quanto é sítio, de uma forma ou outra, com cambiantes condicionados pelo tipo de vida dos falantes e suas características morfo-funcionais. O chinês fala chinês, o japonês fala japonês, o português fala português e rebabá, por razões que levariam um ano a perceber, mesmo que superficialmente, e talvez não conseguisse.
Pelo exposto se entende que uma ideia expressa numa língua pode não corresponder à mesma ideia noutra língua diferente, ainda que traduzida correctamente. Por exemplo, mind the step em inglês é 'atenção ao degrau', mas também pode ser ocupa-te do degrau, ou cuida do degrau. O sentido real é estabelecido por convenção tradicional.
Se passar da ideia à palavra é complicado e sujeito a erros, passar da palavra à ideia é também muitas vezes arriscado. Vem este relambório a propósito de notícia que li hoje, intitulada “Diários de viagem revelam o lado racista de Einstein”. E porque se revela Einstein racista, nesta época anti-xenofóbica, em que eu sou o campeão da anti-xenofobia, mais anti-xenofóbico que tu? 
Einstein era racista porque escreveu, em papeis pessoais ― o diário privado, agora devassado ― coisas como “os chineses são um povo diligente, imundo, e obtuso” ou, “no Sri Lanka, os autóctones vivem em grande imundície e grande fedor”. E nem os japoneses escapam, pois Einstein terá ficado com a convicção de que “As necessidades intelectuais desta nação parecem ser mais fracas do que as necessidades artísticas”. Imagine-se!
Há a história do menino mau aluno a quem o professor perguntou: se o teu pai te der um pão e a tua mãe outro pão, com quantos pães ficas? Fico com dois, respondeu. E, se o teu irmão te der outro e tu deres dois à tua irmã, com quantos ficas. O senhor professor está a fazer perguntas muito difíceis que não fazem parte do programa, respondeu o menino. Einstein, sendo um génio, não conhecia o programa que aí vinha. Não foi capaz de prever que falar sobre o fedor dos autóctones do Sri Lanka, ou sobre a imundície dos chineses ― que eram factos conhecidos ― viria a ser manifestação de xenofobia no século a seguir.
Quanto a mim, tenho a certeza que toda aquela gente tinha casas de banho ainda mais bonitas que o Estádio de Alvalade e não se aliviavam entre o milho.
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