sexta-feira, 10 de março de 2017

AS DITADURAS JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM

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Podíamos tomar as demonstrativas demissões de Nicolae Ceaușescu, na Roménia, de Saddam Hussein, no Iraque, ou mais recentemente, de Fidel Castro em Cuba, embora esta ligeiramente diferente, como indicadores de que os dias dos ditadores estão a chegar ao fim. Infelizmente, não: o autoritarismo está de volta. 
É verdade que os novos autoritários  —  Vladimir Putin na Rússia, Recep Tayyıp Erdoğan na Turquia, ou Viktor Orbán na  Hungria  — são diferentes. Num poema recente, Adam Zagajewski deixou ao novo governo da Polónia a receita de como ser um autoritário moderno:

a) Todos os professores de Direito Constitucional devem ser presos perpetuamente;

b) Os poetas podem ser deixados em liberdade — de qualquer forma, ninguém os lê;

c) São precisos campos de "isolamento", mas de forma a que não irritem as Nações Unidas;

d) Muitos jornalistas devem ser enviados para Madagáscar.

Mas os novos homens fortes parecem mais moderados, claramente menos brutais que Stalin ou Hitler. Segundo o historiador austríaco Hans Rauscher, a violência aberta contra cidadãos, pelo menos na Europa e redondezas, não existe... desde que os Putins, os Erdoğans, e os Orbáns possam governar sem serem importunados pelo povo.
O ditador de meados do Século XX, era um pai exigente. Quando Mustafa Kemal Atartuk falou aos soldados turcos antes do ataque a Gallipoli, "atirou-lhes": "Não estou a pedir-vos que combatam. Estou a ordenar-vos que morram". E Stalin dizia com jactância que no Exército Vermelho era preciso ter mais coragem para recuar do que para avançar.
O autoritarismo actual, ao contrário, espera pouco dos seus "filhos". Não procura transformá-los ou moldá-los num ideal. Pode aconselhá-los a deixar de fumar ou beber (Erdoğan), ou a ter mais filhos (Orbán), mas não os envia para campos de concentração. 
Claro que algumas coisas são proibidas: tentar formar feudos alternativos, preparar "golpes", atraiçoar  um "círculo" próximo e coisas do mesmo género. Experimentá-lo  é aprender que a antiga escola da tirania ainda tem espaço. 
Este é o resumo do início de um artigo de Holly Case, professor de História na Universidade de Brown, Estados Unidos, com o título "Os Novos Autoritários". É uma peça comprida que vale a pena ler na íntegra. Pode fazê-lo aqui.
As ditaduras já não são o que eram, mas estão aí para mostrar que não desaparecem facilmente. Mudam-se os tempos, mudam-se as ditaduras — mas ditadura não morre; faz parte do genoma humano e a selecção natural não se mostra capaz de a eliminar.
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