segunda-feira, 13 de março de 2017

O "BÚZIO"

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Houve em tempos uma figura na Madeira que ultrapassava em originalidade e interesse — nacional e internacional — o indispensável, incontornável e inimitável José Manuel Coelho: era o Búzio! (explicarei adiante o porquê do nome).
Búzio era fruto do ambiente onde nasceu, em zona rural da ilha, com uma infância e juventude sui generis. Cresceu adaptando-se ao meio, qual cuco nascido no ninho doutra ave que não pôs o seu ovo e não o criou como filho. Um produto acabado de autossuficiência, de desenrascanço, de indiferença às consequências dos seus actos, de capacidade de fazer inesperadamente o que não lembra a ninguém — autêntico "fórmula 1" em matéria de sobrevivência.
Naturalmente, conhecia como ninguém os locais mais recônditos da ilha. Era, por isso, o guia ideal para orientar caçadores que não o dispensavam a troco de uns patacos. Caçadores que eram advogados, médicos, juízes e outras figuras locais ilustres. O problema é que, por vezes, Búzio era condenado por delitos menores e andava fugido à Justiça por locais que só ele conhecia. Felizmente, entre os seus clientes como pisteiro, havia os advogados e os juízes que, de forma interesseira — o vício da caça é pior que o da droga — arranjavam maneira de lhe atenuar as penas. E para o avisarem de que podia aparecer, nada melhor que um búzio!!! Iam à montanha onde era suspeito estar escondido e sopravam com tal fôlego que eram ouvidos por todos, especialmente pelo "ouvido de tísico" do Búzio (está explicado o nome). Assim era assegurada a assistência do homem capaz de lhes meter as peças da caça em frente do cano das espingardas.
Búzio não era um provinciano. O homem tinha viajado e muito — havia vivido na América durante uma fase da sua vida aventureira. Suspeita-se que um dia terá embarcado clandestinamente num veleiro em trânsito pelo Funchal e, de forma até hoje não contada, foi parar à Flórida. Estamos a falar dos anos 90 do Século XIX, deduzo pelo que me disse quem me "apresentou" a figura.
Terá passeado a sua incapacidade de integração social pelo Novo Mundo e, de terra em terra, acabou por ir parar a território dos apaches onde ainda reinava o célebre chefe Jerónimo que viria a morrer na cadeia em 1909. Aí, com os apaches, terá tido oportunidade de fazer o doutoramento em ciências da sobrevivência e malandrice. Depois, voltou à Madeira, continuando a dar rédea à genial malandrice, com múltiplos episódios dignos de filme de Scorsese. 
A história aqui narrada sinteticamente, será a primeira vez que aparece em público — e é pena! Pena que não tenha mais divulgação; sobretudo, pela mão de narrador mais inspirado.
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