segunda-feira, 10 de março de 2014

A COMIDA E A FALTA DE VERGONHA

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A civilização tem um alicerce sina qua non: prosaicamente, a comida, também chamada "manga" ou "papa". Não é literariamente, nem poeticamente, muito elevado dizê-lo, mas é a verdade. Arranjamos um esquema que nos libertou da escravidão de andar à cata da "manga" e podemos dar-nos ao luxo de ler livros, ir ao cinema e ao ginásio, editar blogs, tirar fotografias na zona ribeirinha e um ror de outras actividades lúdicas, mesmo quando temos de trabalhar num escritório, num hospital ou numa oficina.
As outras espécies animais são alimentadas pelos pais enquanto crianças mas, quando crescem, passam os dias a tratar da alimentação—o lobo não tem tempo de ir ao cinema, nem as lebres vão aos concertos dos "Xutos e Pontapés". O homem—e a mulher, está bom de ver—inventaram a agricultura, pondo a terra a produzir feijões em vez de erva, guardando os feijões e as sementes em armazéns, vendendo ambos, especialmente os feijões, a quem faz colheres de pau e por aí fora. É a divisão do trabalho, a inteligência colectiva. Nalgumas partes do mundo, em cada 200 pessoas, só uma trabalha na agricultura, na pecuária, ou em ambas—as outras 199 vendem chapéus, fazem casas, investigam a fuga dos chatos para o Egipto, são políticos, polícias, fiscais das finanças, pintores e chefes espirituais.
Quer se compre a comida no supermercado, quer na mercearia do Senhor Mário, ou se coma no restaurante "Favas com Todos", ninguém está preocupado com a sua qualidade—zelar por isso compete a quem de direito, não ao comedor.
O agricultor, por seu lado, procura melhorar a qualidade e a quantidade do que produz para arrecadar mais uns cobres e poder comprar o "Mercedes" com que sonha. Antes, aguardava inquieto que alguma mutação espontânea desse origem a novo fenotipo vegetal, que ele se encarregava de multiplicar, participando na evolução biológica de Darwin, a que este chamava por domesticação. Isto começou com um Senhor chamado Thoreau, ainda antes de Mendel, mas acentuou-se com este. Mendel inspirou a cultura dos mutantes.
Depois veio a "Monsanto" e a Bio-Engenharia, em princípio uma grande ideia, mas praticada por sacanas  sem vergonha que estragaram tudo. Tão sacanas, que já ninguém confia nos alimentos geneticamente modificados, potencialmente uma benção de Deus para a humanidade. E vai levar muitos anos para a selecção natural dar cabo de gente como os patrões da "Monsanto". Mas confiemos em Darwin—a natureza há-de acabar com eles. Não falha!
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