A vida é curta, a arte é longa, a ocasião
fugitiva, a experiência enganadora, o juízo difícil, dizia Hipócrates que era
um sábio. E o Oráculo de Delfos avisava o mundo que Sócrates—o genuíno, está
bom de ver—era o homem mais inteligente do mundo porque sabia que nada sabia.
Na realidade sabemos muito pouco. Ou melhor, o que sabemos é tosco.
Pensemos, para começar, naquilo que achamos
rigoroso, nas nossas ciências chamadas exactas (porque também as temos não exactas!).
Por exemplo, dizemos que um homem tem 1 metro e 75 centímetros de altura—quando,
na realidade, tem 1 metro, 75 centímetros,
um milímetro e 7 décimas de milímetro—e ficamos satisfeitos. Mas se disséssemos
que tem 1 metro, 75 centímetros, um milímetro e 7 décimas de milímetro, também
ficávamos satisfeitos, embora estivéssemos ainda errados. Porquê? Porque há
unidades mais pequenas que a décima do milímetro que desprezamos. Por exemplo a
centésima, a milésima, a milionésima, rebabá.
E
quando queremos apurar as coisas, esbarramos. A nossa visão não vai além de
dimensões inferiores ao mais pequeno comprimento de onda da radiação visível,
que é de 400 nanómetros—1 nanómetro é igual a 1 metro a dividir por
1.000.000.000—e, portanto, mesmo com aparelhos ampliadores, não conseguimos ler
fracções inferiores a 1 metro a dividir por 2.500.000. Estamos feitos ao bife.
Para ser mais preciso, atamancamos e isso é perigoso, se esquecemos o aviso
contido na mensagem do Oráculo.
Há incerteza em tudo quanto medimos e as
técnicas que usamos para medir são jericadas, são asininas, de mercearia de
aldeia. Sabia que o quilograma padrão que está solenemente em França, cada vez
que é avaliado, tem peso diferente? Desconfio que não acredita, mas é verdade.
Quando pesa menos, os merceeiros de todo o mundo ficam a ganhar, quando pesa
mais, blá, blá, blá. Estamos a falar em medir a altura de homens—e mulheres, ou
seja, humanos para o Dr. Soares—e em pesar batatas, nabos e bacalhau. Agora
pense no que é prever o aquecimento global, estabelecer relação entre o
consumo de carne vermelha e os tumores do intestino, ou saber se as prisões servem
para punir ou para recuperar delinquentes.
A ciência é uma actividade lúdica que, por vezes, tem utilidade. Mas, em relação a ela—sem petulância o digo—devemos
manter-nos como as imagens do Senhor dos
Passos; isto é, com o pé atrás. Einstein dizia que, comparada com a realidade, é
primitiva e infantil; embora seja a coisa mais preciosa que temos. Exactamente,
ganda Einstein!
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