segunda-feira, 10 de março de 2014

A ARTE É LONGA, O JUÍZO DIFÍCIL

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A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugitiva, a experiência enganadora, o juízo difícil, dizia Hipócrates que era um sábio. E o Oráculo de Delfos avisava o mundo que Sócrates—o genuíno, está bom de ver—era o homem mais inteligente do mundo porque sabia que nada sabia. Na realidade sabemos muito pouco. Ou melhor, o que sabemos é tosco.
Pensemos, para começar, naquilo que achamos rigoroso, nas nossas ciências chamadas exactas (porque também as temos não exactas!). Por exemplo, dizemos que um homem tem 1 metro e 75 centímetros de altura—quando, na realidade,  tem 1 metro, 75 centímetros, um milímetro e 7 décimas de milímetro—e ficamos satisfeitos. Mas se disséssemos que tem 1 metro, 75 centímetros, um milímetro e 7 décimas de milímetro, também ficávamos satisfeitos, embora estivéssemos ainda errados. Porquê? Porque há unidades mais pequenas que a décima do milímetro que desprezamos. Por exemplo a centésima, a milésima, a milionésima, rebabá.
E quando queremos apurar as coisas, esbarramos. A nossa visão não vai além de dimensões inferiores ao mais pequeno comprimento de onda da radiação visível, que é de 400 nanómetros—1 nanómetro é igual a 1 metro a dividir por 1.000.000.000—e, portanto, mesmo com aparelhos ampliadores, não conseguimos ler fracções inferiores a 1 metro a dividir por 2.500.000. Estamos feitos ao bife. Para ser mais preciso, atamancamos e isso é perigoso, se esquecemos o aviso contido na mensagem do Oráculo.
Há incerteza em tudo quanto medimos e as técnicas que usamos para medir são jericadas, são asininas, de mercearia de aldeia. Sabia que o quilograma padrão que está solenemente em França, cada vez que é avaliado, tem peso diferente? Desconfio que não acredita, mas é verdade. Quando pesa menos, os merceeiros de todo o mundo ficam a ganhar, quando pesa mais, blá, blá, blá. Estamos a falar em medir a altura de homens—e mulheres, ou seja, humanos para o Dr. Soares—e em pesar batatas, nabos e bacalhau. Agora pense no que é prever o aquecimento global, estabelecer relação entre o consumo de carne vermelha e os tumores do intestino, ou saber se as prisões servem para punir ou para recuperar delinquentes.
A ciência é uma actividade lúdica que, por vezes, tem utilidade. Mas, em relação a ela—sem petulância o digo—devemos manter-nos como as imagens  do Senhor dos Passos; isto é, com o pé atrás. Einstein dizia que, comparada com a realidade, é primitiva e infantil; embora seja a coisa mais preciosa que temos. Exactamente, ganda Einstein!
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