sábado, 8 de março de 2014

ELOGIO DA PRECARIEDADE

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Precariedade (e não precaridade, como se vê nos jornais) é um conceito modesto e habitualmente depreciativo no senso comum. Precário é o débil, o frágil, instável, provisório. Por isso, não abona nada nem ninguém. Mas, na realidade, depende do ponto de vista e do contexto. Poderá dizer-se que vivemos hoje tempos em que a incapacidade de a aceitar ou reconhecer é fonte de todas as desgraças—pelo menos, de muitas desgraças.
A ciência tem como imagem de marca e regra metódica o facto de reconhecer que todo o património do conhecimento científico é precário. Como dizia há dias, é antiautoritária porque todos podem colaborar nela e todos podem estar errados, qualquer que seja a sua qualificação. Portanto, a ciência está absolvida do labéu de fonte de todas, ou quase todas as desgraças.
Mas que dizer de outras actividades humanas? Lidar com a incerteza e estar asininamente agarrado a ideias velhas é o drama que nos rodeia diariamente. E não estou a referir-me exclusivamente à política, embora esta seja o melhor exemplo da qualidade de ser asinino. Há convicções sociais, filosóficas, religiosas até, para que não há pachorra.
O mundo seria diferente se a aceitação da precariedade fosse mais comum e aplicada a coisas hoje intocáveis, como certos nacionalismos, a tradição, algumas formas de cultura, a religião até. Incluindo, está bom de ver, a calçada portuguesa.
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