Precariedade (e não precaridade, como se vê nos jornais)
é um conceito modesto e habitualmente depreciativo no senso comum. Precário é o
débil, o frágil, instável, provisório. Por isso, não abona nada nem ninguém. Mas, na
realidade, depende do ponto de vista e do contexto. Poderá dizer-se que vivemos
hoje tempos em que a incapacidade de a aceitar ou reconhecer é fonte de todas
as desgraças—pelo menos, de muitas desgraças.
A ciência tem como imagem de marca e regra metódica o facto
de reconhecer que todo o património do conhecimento científico é precário. Como
dizia há dias, é antiautoritária porque todos podem colaborar nela e todos
podem estar errados, qualquer que seja a sua qualificação. Portanto, a ciência
está absolvida do labéu de fonte de todas, ou quase todas as desgraças.
Mas que dizer de outras actividades humanas? Lidar com a
incerteza e estar asininamente agarrado a ideias velhas é o drama que nos
rodeia diariamente. E não estou a referir-me exclusivamente à política, embora
esta seja o melhor exemplo da qualidade de ser asinino. Há convicções sociais, filosóficas,
religiosas até, para que não há pachorra.
O mundo seria diferente se a aceitação da precariedade
fosse mais comum e aplicada a coisas hoje intocáveis, como certos nacionalismos,
a tradição, algumas formas de cultura, a religião até. Incluindo, está bom de
ver, a calçada portuguesa.
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