Charles Seife tem um mestrado em Matemática na Universidade de Yale e escreve na revista Science, na New Scientist, no The Economist, no Wired UK, na The Sciences e em outras publicações científicas. Recentemente, publicou um livro cujo título é, inesperadamente, "Zero"—tal e qual: zero, não como imagem, não como figura de retórica, não como abstracção, mas zero número, simplesmente.
Como não podia deixar de ser, começa no capítulo "0",
que precede o "1", o "2", o "3" e por aí fora.
Nele conta a história de um episódio ocorrido no porta-aviões americano USS "Yorktown",
desencadeado por um zero esquecido pelos
informáticos no software dos computadores, que quase inutilizava o navio, quando
as máquinas tentaram dividir um valor pelo supracitado zero. E acrescenta: nenhum
outro número podia fazer tal coisa, uma sombra do poder do zero. Passa então a
dissertar sobre o bicho, perdão, sobre o zero, como se resume abaixo. A prosa de Seife é brilhante e, por isso, não é fácil traduzi-lo sem atraiçoar; mas aqui vai o melhor que pude fazer.
Antigas culturas entrincheiraram-se contra ele e filosofias
desmoronaram-se sob a sua influência porque o zero é diferente dos outros números.
Evoca a visão do inenarrável ou indescritível e do infinito, razão porque foi
temido, odiado, mesmo perseguido por lei.
Esta é a história do zero desde o seu nascimento no
Oriente, da luta para a sua aceitação no Ocidente, e da ameaça permanente que é
para a Física moderna. É a história das pessoas que se bateram pelo significado de tão misterioso
conceito—académicos e místicos, cientistas e religiosos—que procuraram compreendê-lo.
É a história das tentativas para o proteger das investidas no Ocidente—por vezes
violentas—contra uma ideia oriental. E a história dos paradoxos levantados por
um número aparentemente inocente que preocupa mesmo os cérebros mais brilhantes
deste Século, ameaçando comprometer todo
o pensamento científico.
O zero é poderoso porque é gémeo do infinito. São iguais
e opostos, yin e yang. Igualmente paradoxais e perturbantes. As maiores
questões em ciência e religião respeitam ao nada e à eternidade, ao vazio e ao infinito, ao zero e à infinidade. O
debate sobre o zero foi batalha que abalou os fundamentos da Filosofia, da ciência
em geral, da Matemática e da religião. Por trás de cada revolução mora o zero—e uma infinidade.
O zero esteve no íntimo da luta entre o Leste e o Oeste.
Esteve no centro de disputas entre religião e ciência. Tornou-se a linguagem da
natureza e a mais importante ferramenta da Matemática. E os profundos problemas
da Física—o escuro núcleo do buraco negro e o brilhante flash do Big-Bang—são tentativas de o destruir.
Contudo, ao longo
da História, não obstante a rejeição e o exílio, o zero sempre venceu os
que se lhe opunham. A humanidade nunca forçou o zero a adaptar-se às suas filosofias.
Ao contrário, o zero moldou a visão da humanidade sobre o mundo—e sobre Deus.
Nota: Diz-se que o zero foi inventado independentemente na Babilónia,
na Índia e na América, pelo povo Maia. A convicção geral é a de que foi na Índia que
começou a ser usado como número, por volta de 458 AD. A Matemática nasceu da necessidade de contar ovelhas,
galinhas, passos de comprimento de um terreno, número de luas-cheias, rebabá. Muitas
vezes, o registo dos números era feito com riscos num osso, num pau, ou numa
pedra—os primeiros livros de contabilidade, primeiras calculadoras até. O zero
não fazia falta: ninguém registava num osso, num pau, ou numa pedra, que tinha
zero ovelhas, um terreno com zero passos de comprimento, ou observado zero
luas-cheias; da mesma forma que não falamos em ir comprar zero ovos ao mercado.
A introdução da numeração cardinal levantou os primeiros
problemas com a representação dos números altos e foi resolvida de forma
diferente em diversas áreas geográficas. Mas isso interessa pouco agora. O que
interessa é que esta evolução transformou a Matemática dos riscos no osso e no
pau, numa ciência abstracta, com necessidade da noção do zero e do infinito—toques
de mestre na ciência dos números. Hoje nem temos a noção do que é viver sem zeros,
que nos fazem imensa falta—se excluirmos o Passos Coelho e o Zezito.
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