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A gravidade da mentira é relativa. Em Düsseldorf, à porta
de um lar da terceira idade, existe uma paragem de autocarros onde não pára
autocarro nenhum. Os residentes com demência, por vezes, escapam do lar e
procuram ir para casa ou outro lugar. Sem transporte, sentam-se na paragem de
autocarros à espera, o tempo suficiente para alguém do lar se aperceber da fuga
e ir buscá-los.
Santo Agostinho falava da mentira caridosa e a humanidade
nunca deixou de mentir—por caridade ou outra razão. Há a mentira caridosa, a
não caridosa mas útil, e toda uma panóplia de categorias, umas melhores, outras
piores. Por exemplo, aqueles botões nos semáforos para abrir a passagem aos
peões, leio que são "placebos". Destinam-se a iludir o peão
apressado, convencido de estar a fazer alguma coisa para vencer o tempo mas, na
realidade, não está a fazer nada. O mesmo com os dos elevadores para fechar e
abrir as portas—são botões de espera galego.
Nos computadores, as barras que mostram a evolução de
várias operações, sejam downloads, instalações de software, ou o que seja, não
têm a mínima relação com a evolução temporal da operação a ser feita. Na melhor
das hipóteses servem para dizer "estou a tratar disso".
São mentiras caridosas? Não diria tanto. Mas são úteis
pela carga de ansiedade que previnem. Um designer industrial famoso, Dieter Rams, escreveu em
tempos os dez princípios do bom design, espécie de Bíblia para os profissionais
do ramo, vendida em todo o mundo sob a forma de posters. A páginas tantas, diz
que um bom produto não tenta manipular o consumidor com promessas que não pode
cumprir.
A regra de Rams, em primeira análise está certa, mas não
é universal—aplica-se nuns casos e é discutível noutros. Por exemplo, e
voltando à cena das barras dos computadores para, hipoteticamente, mostrar a evolução das operações informáticas,
elas são preciosas. Não há nada mais chato que tentar fazer uma operação
qualquer e o computador "entupir", ou seja, nem sim, nem sopas. A
gente não sabe se ele amarrou o burro, ou está ocupado. Aquela barrinha verde a
correr da esquerda para a direita, a fingir que nos está a informar, é mágica e indispensável para quebrar a impaciência e a expectativa. Não é a mentira
caridosa de Santo Agostinho, mas é a mentira generosa.
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