Há quem se agaste por eu citar tantas vezes Alberto
Gonçalves. É por isso que continuo a citar. Os que não gostam do sarcasmo
do jornalista, gostam daqueles que ele escarnece, da esquerda, do centro ou da
direita, especialmente da esquerda. Hoje a citação é um nadinha maior, mas a
importância do tema justifica o facto.
O episódio dos brasões das ex-colónias num canteiro
lisboeta lançou por aí a ideia absurda de que António Costa pretende reescrever
o passado e outras malfeitorias do género. Obviamente, é mentira: o Dr. Costa
não se envergonha da história, pelo menos da história do PS, que de vez em
quando faz questão de chamar à sua notável retórica.
Em retribuição, agora foi a história do PS a deslocar-se
até ao Dr. Costa, nas estimáveis pessoas de Almeida Santos, Jorge Sampaio,
Manuel Alegre e Vera Jardim. Enquanto tomava o pequeno-almoço com o candidato à
liderança do partido, o vetusto grupo manifestou-lhe, talvez entre duas
torradinhas, o seu decisivo apoio na contenda. Muito agradecido, o Dr. Costa
confessou-se orgulhoso. Se isto não demonstra respeito pelos tempos de antanho,
não sei o que demonstraria.
Comparadas com tamanha delegação (e que inclui, em
espírito se não em matéria, Mário Soares e José Sócrates), as antigas
províncias ultramarinas são um símbolo da modernidade, e a "brigada do
reumático" uma aula de zumba. Sou, aliás, da opinião de que Portugal não
deve desperdiçar a riquíssima memória que as referidas personalidades
representam. O património acumulado no lastro público dessas personalidades
devia estar disponível ao cidadão comum 24 horas por dia, ou no mínimo durante
o horário de expediente. Espero por isso que, no tempo que lhe resta à frente
da autarquia da capital, o Dr. Costa substitua os brasões florais pelos
próprios "históricos" socialistas, que doravante enfeitariam com
superior propriedade a Praça do Império (entretanto renomeada "da Canção",
em homenagem ao poeta Alegre).
A troca dos manjericões inertes do Império pelos jarrões
de carne e osso do regime teria inúmeras vantagens. Desde logo, a de ser um
museu literalmente vivo, onde as famílias passeariam ao domingo e, através do
convívio directo, os pais ensinariam à descendência o legado dos vultos do PS
ao País. Não se pode dizer que lhes devemos muito, mas devemos muito por causa
deles. E esta, sim, é a razão pela qual convém preservar a memória: se a
perdermos, abrimos a porta à repetição de calamidades, atendam ou não pelo nome
de António Costa.
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