terça-feira, 27 de junho de 2017

EM ITÁLICO

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[...] Em Portugal, o que existe é (, pelo contrário,) uma cultura de irresponsabilidade política pelo que, mesmo perante um acontecimento de enorme gravidade, os políticos protegem-se mutuamente, evitando o apuramento das responsabilidades.
Foi assim que, quando o Presidente da República apareceu no incêndio de Pedrógão Grande, onde morreram 64 pessoas, proclamou bem alto, antes de qualquer inquérito ou averiguação, que ninguém era responsável: “O que se fez foi o máximo que se poderia ter feito.” Uma semana depois, já aparece a dizer que é necessário “apurar tudo, mas mesmo tudo o que houver a apurar”, mas apenas “no plano técnico e institucional”. Isto porque, no plano político, já é claro que ninguém será responsabilizado.
O primeiro-ministro agradece a ajuda presidencial, alinhando precisamente pelo mesmo diapasão. Reconhece que “seria mais cómodo o sacrifício de uma colega do governo”, mas mantém a sua confiança política na ministra da Administração Interna, afastando qualquer responsabilização. Quando se pensa que se trata do mesmo primeiro-ministro que retirou a confiança política ao ministro da Cultura por este ter prometido umas terapêuticas bofetadas a dois críticos, pergunta-se quais são os critérios pelos quais este governo se gere em matéria de responsabilidade política.
Mas o que tem sido espantoso é a forma como alguma imprensa tem colaborado com o governo na montagem de uma cortina de fumo, a ver se consegue esconder a verdadeira dimensão dos danos causados pelos fogos. É assim que uma jornalista é massacrada nas redes sociais por fazer um directo junto a um corpo, como se os mortos devessem ser escondidos. É assim que a imprensa noticia as perguntas que o primeiro-ministro anda a fazer aos serviços, em vez que (de?) lhe pedir uma resposta cabal e urgente sobre o assunto. E, quando aparece um jornalista a escrever num jornal espanhol sob pseudónimo, a avisar que a carreira política do primeiro-ministro pode estar em causa – o que seria óbvio em qualquer outro país –, procura-se imediatamente matar o mensageiro, atacando o jornal e questionando-o sobre a identidade do jornalista em causa. A ponto de o próprio jornal vir dizer que nunca viu nada semelhante em 22 anos da sua secção internacional, nem quando escreve sobre a Venezuela e a Turquia. 
É espantoso que ninguém em Portugal se aperceba da figura que o nosso país está a fazer a nível internacional, com esta exibição da sua incapacidade de responsabilizar os seus governantes. [...]

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Luís Menezes Leitão in "Jornal i"
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