domingo, 27 de maio de 2018

ESCREVER É ASSIM


[...] Jerusalém é uma vila turca, com vielas andrajosas, acaçapada entre muralhas 
cor de lodo e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes. 
O Jordão, rio de água barrento e peco que se arrasta entre arcais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, no fundo do Mosteiro, banha as raízes dos meus amieiros: e todavia vede! Estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do céu à terra as ameaças do Altíssimo!
Entretanto, como há espíritos insaciáveis que, lendo de uma jornada pelas terras da Escritura, anelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao preço da cerveja, eu recomendo a obra copiosa do meu companheiro de romagem, o alemão Topsius, doutor pela Universidade de Bonn e membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas. São sete volumes in quarto, atochados, impressos em Leipzig, com este título fino e profundo — JERUSALÉM PASSEADA E COMENTADA.
Em cada página desse sólido itinerário, o douto Topsius fala de mim, com admiração e com saudade. Denomina-me sempre o ilustre fidalgo lusitano; e a fidalguia do seu camarada, que ele faz remontar aos Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. [...]

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Eça de Queirós in "A Relíquia"
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