Marx dizia que o socialismo funciona. Estranhamente é
verdade, mas a afirmação não se aplica ao homem. Azar o nosso? Não sei. Sei que
o socialismo funciona, mas noutros mundos: por exemplo, nas comunidades dos
chamados insectos eu-sociais, como as formigas e as abelhas. Aí há socialismo quase
a valer, com os indivíduos a comportarem-se como bons cidadãos, muito melhor
que o Homo sapiens, um verdadeiro javardo.
Nas comunidades das formigas e das abelhas, a reprodução
está restringida às rainhas e a machos a isso dedicados, sendo o resto da
população incapaz de transmitir o genoma a descendentes e por isso empenhada apenas
no serviço da comunidade—o formigueiro ou a colmeia. Dir-se-á que tais sociedades
são lugares angélicos, exemplos para nós.
Em boa verdade, as coisas nem sempre são tão angélicas.
Estamos a falar de contos da carochinha que não correspondem de todo à
realidade. Mesmo nestas sociedades mais robóticas que a de Mao, por vezes o
individualismo é mais forte que o aparente interesse colectivo e alguns
elementos obreiros põem ovos que possam ser fecundados para transmitir o genoma
a novas gerações, implicando tal prática—em caso de sucesso—a necessidade de desviar
recursos da comunidade para benefício individual, à margem do plano da espécie.
Em apontamento à parte, aproveito para notar o facto
disto configurar exemplo do que falava ontem, de desvio biológico pouco
compatível com a teoria dos que defendem a existência de plano de um ser
inteligente na organização do universo. Mas isso não interessa agora.
Nalgumas espécies de vespas, este comportamento—socialmente
indecente—é punido por uma espécie de policiamento não organizado pela
colectividade mas, ainda assim, praticado por número limitado de
"populares", o que é curioso—uma espécie de PSP, ou GNR!
Aliás, a ideia geral de unidades biológicas a trabalharem de
forma integrada para o bem comum é correcta mas tem buracos—mais que uma
flauta. Por exemplo, as nossas células são inesperadamente susceptíveis a mutações
do genoma, podendo originar células cancerosas, completamente à margem da função
original e agressivas, capazes de nos atirar de pernas para o ar num esfregar
de olhos.
É claro que também em nós há uma PSP, ou GNR, como nas
vespas: são os macrófagos, encarregados de patrulhar o organismo e atacar e
destruir essas células mutantes. Mas a porra—e peço desculpa pela linguagem,
mas é mesmo isso—é que as células tumorais, em última análise, são capazes de
subornar os macrófagos que, em vez de as atacar, se juntam a elas. Já
viram?!!!... Segregam factor do crescimento para as células cancerosas medrarem e protegem-nas
do resto do sistema imunitário. São polícias mais que corruptos!
Passamos o tempo de boca aberta com as maravilhas da
vida, mas há muita coisa mal feita. Romances é o que são a maior parte dos
escritos sobre ela. Vinicius dizia: Tem dias que
eu fico/Pensando na vida/E sinceramente/Não
vejo saída/Como é, por exemplo/Que dá pra entender/A gente mal nasce/Começa a morrer.
Estou com Vinicius. Não dá para entender—a vida é uma charada.
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