Benjamin Grant Purzycki é antroplogista, trabalha
na University of British Columbia, em
Vancouver, e interessa-se pela Psicologia
das Religiões—há disso! Publica hoje um artigo no AEON, intitulado (mais ou
menos) "Big Brother punitivo; Perseguidor cósmico de pilha-galinhas; Senhor
das terras. Porque está Deus tão interessado nos maus comportamentos?" O
título, só por si, é um artigo, mas vale a pena ler o resto.
Começa
por afirmar que, de todas as excentricidades humanas, a religião deve ser das
mais incompreensíveis. Embora ninguém tenha produzido um miligrama de evidência
da existência de Deus, as pessoas envolvem-se em repetitivas práticas, por vezes trabalhosos comportamentos, com a convicção
de que um ser etéreo, algures, vê, administra e toma conta. E, não obstante
acreditar ou não, muita gente sábia tem queimado considerável número de calorias
tentando deslindar o mistério que é a mente de Deus e as implicações que tem em
literalmente tudo.
Pergunta-se
a alguém o que sabe Deus e há toda a probabilidade de ouvir: "Tudo".
Mas se a pergunta é sobre com o que se preocupa Deus, a resposta será "assassínio",
"roubo", "mentira", "generosidade",
"bondade" e "amor". Constata-se que, com infinita sabedoria, as preocupações de Deus
são inesperadamente limitadas: ficam-se por coisas morais.
O texto
tem 3.000 palavras e não cabe num post de blog,
embora mereça—pode ler o original aqui. Vou limitar-me a considerações sobre
alguns aspectos mais interessantes, embora sejam todos o sejam.
A páginas
tantas, Purzycki faz esta afirmação, deduzida de experimentação pessoal:
Há uma regra na nossa programação mental que leva a acreditar que as mentes
sem corpo, ou incorpóreas, sabem mais que as corpóreas (explica como chegou à conclusão). É extraordinário, mas
acontece também com entidades diferentes, não divinas, mesmo de ficção, especialmente
em crianças.
E é geral o facto de Deus
saber mais sobre coisas negativas. Sabe que o Zezito rouba, mas não sabe que a
Rita gosta de morangos, por exemplo. Do ponto de vista da evolução, isto é positivo porque cria ordem na sociedade e facilita a sobrevivência. Os povos
mais evoluídos têm tradição forte de
crença num Deus moralista; e quando a criminalidade é maior, cresce a
religiosidade, como instinto de defesa—Deus evolui.
Naturalmente, nem todas as
religiões são moralistas como as
abraâmicas. Nem todos os deuses sabem tudo, nem se preocupam com a forma como
nos tratamos uns aos outros, nem castigam quem não cumpre os preceitos, nem se
importam que acreditem neles ou não e por aí fora.
Por exemplo, em Tuva, na
Sibéria, os deuses não são universais: cada terra—mesmo propriedade—tem um Deus
privado. E tais deuses não perdem tempo com preceitos de ordem moral e não
punem, como os deuses abraâmicos, por esse motivo. Mas, se falha o respeito, ou
alguma oferenda, a sorte do fiel pode mudar. E o Deus daquele lugar (spirit-master), não sabe o que se passa
noutros lugares—isso diz respeito ao spirit-master
de lá. Contudo, embora não tenham cuidado com preceitos morais, os deuses estão vigilantes
em relação ao respeito pela terra, pelos bens cultivados, pelas regras da caça,
pelos recursos naturais. No fundo, tradições culturais também intimamente ligadas à sobrevivência numa
perspectiva evolucionista.
Religião, segundo Purzycki, é instinto de defesa psicológica e física. Fica a mensagem para pensar. Cada um aja em conformidade com o que concluir. "O Dolicocéfalo" é neutral..

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