segunda-feira, 11 de maio de 2015

É CHATO E MALCRIADO

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O homem é o resultado da obra do seu genoma e da cultura em que está imerso. O mesmo genoma pode produzir homens diferentes, dependendo do meio onde nascem, vivem e morrem. A pergunta é se há algo semelhante aos genes—ou ao ADN—na cultura? Isto é, há suporte orgânico no cérebro para transmitir opções por conceitos estéticos, éticos, religiosos e por aí fora, ou a cultura é software todo instalado no hardware cerebral apenas depois do nascimento?
De repente, parece ser esta última hipótese a mais provável, por ser a mais simples de compreender. Mas há quem não pense assim. Richard Dawkins, "campeão" do ateísmo, num livro chamado O Gene Egoísta, fala de estruturas cerebrais que absorvem a cultura e podem transmiti-la—de forma de certa maneira análoga aos genes—à descendência, especialmente as convicções religiosas. Chama a essas "unidades culturais" memes, do grego mimeme que significa imitar.
É claro que Dawkins é suspeito porque a teoria dos memes ajuda a explicar a resiliência da religiosidade que o incomoda bastante. As pessoas seriam crentes porque os antepassados lhes "meteram na cabeça" memes, com que nascem e de que não se libertam, tal como não podem libertar-se dos genes.
As neurociências—até ver—não encontraram vestígios morfológicos ou funcionais dos memes. É verdade que o bosão de Higgs foi falado durante muitos anos sem nenhum suporte experimental antes de ser encontrado no CERN. Mas não deixa de ser paradoxal que Dawkins, tão intransigente com a religião porque não consegue provar a existência de Deus, acredite tanto nos memes, em relação aos quais se põe o mesmo problema. A isso chama-se viés intelectual. Porque não se limita Dawkins—e outros como ele—a ser simplesmente ateu, idealmente agnóstico, e não deixa os crentes em paz? Acha que a religião faz mal às pessoas. Talvez faça. Mas Dawkins não adianta muito mais—é um chato impertinente e, sobretudo, malcriado.
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