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O homem é o
resultado da obra do seu genoma e da cultura em que está imerso. O mesmo genoma
pode produzir homens diferentes, dependendo do meio onde nascem, vivem e morrem.
A pergunta é se há algo semelhante aos genes—ou ao ADN—na cultura? Isto é, há
suporte orgânico no cérebro para transmitir opções por conceitos estéticos,
éticos, religiosos e por aí fora, ou a cultura é software todo instalado no hardware
cerebral apenas depois do nascimento?
De repente, parece
ser esta última hipótese a mais provável, por ser a mais simples de compreender.
Mas há quem não pense assim. Richard Dawkins, "campeão" do ateísmo,
num livro chamado O Gene Egoísta,
fala de estruturas cerebrais que absorvem a cultura e podem transmiti-la—de
forma de certa maneira análoga aos genes—à descendência, especialmente as
convicções religiosas. Chama a essas "unidades culturais" memes, do
grego mimeme que significa imitar.
É claro que Dawkins é suspeito porque a teoria dos memes
ajuda a explicar a resiliência da religiosidade que o incomoda bastante. As
pessoas seriam crentes porque os antepassados lhes "meteram na
cabeça" memes, com que nascem e de que não se libertam, tal como não podem
libertar-se dos genes.
As neurociências—até ver—não encontraram vestígios
morfológicos ou funcionais dos memes. É verdade que o bosão de Higgs foi falado
durante muitos anos sem nenhum suporte experimental antes de ser encontrado no
CERN. Mas não deixa de ser paradoxal que Dawkins, tão intransigente com a
religião porque não consegue provar a existência de Deus, acredite tanto nos
memes, em relação aos quais se põe o mesmo problema. A isso chama-se viés
intelectual. Porque não se limita Dawkins—e outros como ele—a ser simplesmente ateu,
idealmente agnóstico, e não deixa os crentes em paz? Acha que a religião faz
mal às pessoas. Talvez faça. Mas Dawkins não adianta muito mais—é um chato
impertinente e, sobretudo, malcriado.
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