Manuel
Carvalho escreveu ontem um artigo no "Público" que considero de rara
lucidez e brilhante. Tem por título "António Costa de volta ao reino das promessas"
e diz a páginas tantas o seguinte:
[...]
Num tempo de incerteza e de dificuldade
como o que atravessamos, os cidadãos tendem a ser conservadores, a jogar pelo
seguro, a contentar-se com a expectativa de que as coisas não vão piorar. Eis
senão que, contra esta percepção generalizada, António Costa veio esta semana
prometer uma revisão dos escalões do IRS sem mostrar como conseguirá manter os
níveis da receita, anunciou a reposição dos feriados, admitiu o regresso das 35
horas semanais na função pública e deixou até no ar numa entrevista ao DN que admite
reverter um pouco provável processo de privatização da TAP, caso a companhia
venha a ser dominada por um privado.
António Costa, que o grupo de
economistas parecia ter recolocado no centro, voltou
assim a gravitar na orla de influência da ala mais à esquerda do partido—o que,
não sendo um mal em si próprio, mostra incapacidade de ler os sinais dos tempos
e as percepções que os cidadãos têm em relação à política. E isso acontece
porque nas iluminadas cabeças do Largo do Rato ainda ninguém foi capaz de
discutir e ainda menos de entender um dos maiores paradoxos da breve história
da democracia portuguesa: como pode uma coligação que cortou salários e
pensões, que impôs um terrível aumento de impostos, que chega ao final da
legislatura com números recordes na dívida pública, no desemprego ou no êxodo
de jovens qualificados estar em condições de disputar as eleições? Depois de
ter percebido que não bastava uma aura para se impor aos partidos do Governo,
Costa ficou a saber que tinha de dispor de um plano inteligente para convencer
os portugueses da bondade do seu programa. Teve-o no documento dos 12 economistas,
apesar das legítimas dúvidas que matérias como a TSU e a sustentabilidade da
Segurança Social colocam. Sair dessa rota e regressar ao admirável mundo das
promessas é um erro que lhe vai custar muito caro. [...]
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