domingo, 5 de fevereiro de 2017

NÃO VEMOS AS COISAS COMO ELAS SÃO, VEMO-LAS COMO NÓS SOMOS*

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Galen Strawson, filósofo britânico a leccionar na Universidade do Texas, em Austin, escreve hoje um artigo no "AEON Magazine" intitulado "I am not a story" e onde, a páginas tantas, diz o seguinte: O escritor português Fernando Pessoa, com o heterónimo Alberto Caeiro (um dos 75 alter egos com que escreveu) é uma personagem estranha, mas que capta uma experiência comum a muita gente, quando diz: "Em cada momento, sinto-me como se tivesse acabado de nascer/Num interminável mundo novo" (a citação foi traduzida e não corresponde exactamente ao original em português: "Sinto-me nascido a cada momento/Para a eterna novidade do Mundo... ). E porque fala Strawson nisto? Porque o autor discute no ensaio como cada um de nós vê a sua vida: vêmo-la com objectividade, como ela foi e é — mesmo quando não foi, ou é, brilhante — ou construímos uma "história", ou várias "histórias", que evocamos em cada momento, de acordo com as circunstâncias, para manter o equilíbrio mental?
Strawson cita vários intelectuais sobre esta matéria, que passo a resumir: 

Cada um de nós constrói e vive uma narrativa. Esta narrativa somos nós. (Oliver Sacks)

O eu é uma história perpetuamente reescrita. No fim, tornamo-nos  em narrativas autobiográficas com as quais contamos as nossas vidas. (Jerome Bruner)

Somos todos contadores de histórias e somos as histórias que contamos. (Dan P McAdams)

Inventámo-nos a nós próprios... mas somos, na realidade, as personagens que inventamos. (J David Velleman)

Somos novelistas famosos que nos envolvemos em toda a espécie de comportamentos... e neles usamos sempre a melhor face que podemos. Tentamos ser coerentes numa boa história e essa história é a nossa autobiografia. A principal personagem, no centro dessa autobiografia, é o nosso eu. (Daniel Dennett)

Segundo Strawson, os "narrativistas" — como lhes chama — estão, na melhor das hipóteses, a generalizar o seu caso; ou seja, o que dizem é a descrição deles próprios. A sua "popularidade" é a confirmação de que há gente assim, embora muitos de nós possam não ser.
Num livro recente, a filósofa americana Marya Schechtman defende que a pessoa experimenta a vida com a consciência de um ser individual, com um currículo próprio, posição refutada pelo autor do ensaio.
Somerset Maugham escreveu, em 1949: Reconheço que sou feito de várias pessoas e que a pessoa dominante neste momento dará, inevitavelmente, lugar a outra. Mas qual delas é a real? Todas elas, ou nenhuma?
Do meu ponto de vista (Dolicocéfalo), nenhuma é real. Na verdade, todos vivemos em trânsito permanente, com pontos de vista condicionados pela experiência envolvente. Hoje, a reacção perante um facto pode ser diferente da de amanhã em relação à mesma situação. Em cada dia e em cada momento somos personagens distintas numa novela cujo desempenho depende do contexto envolvente.  
Será isto falta de coerência? Estou certo que sim. Mas quem disse que somos perfeitos? Ou que não há margem para desvios opinativos e/ou comportamentais condicionados pela ocasião? Quem não for "narrativista"   dentro de limites éticos aceitáveis  que atire a primeira pedra.

*Anais Nin
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