domingo, 22 de março de 2015

SÓ PARA QUEM NÃO ENSANDECEU

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Miguel Sousa Tavares, em minha modesta opinião, é um jornalista com a virtude de dar uma no cravo e outra na ferradura. Digo virtude porque só há dois tipos de jornalistas: os que nunca acertam no cravo e os que acertam às vezes, sendo os primeiros largamente dominantes—sobretudo os politicamente correctos e "Charlie" incondicionais.
Hoje, Miguel escreve assim no "Expresso" sobre a chamada "lista Vip":

[...] Mas então, perguntarão os demagogos armados em falsos ingénuos, se são todos iguais perante a lei como é que alguns têm direito a protecção do segredo e outros não? Resposta: justamente porque todos devem ser iguais perante a lei. E, se nenhum funcionário das Finanças ou qualquer jornalista do “Correio da Manhã” está interessado em saber qual a situação fiscal do Zé dos Anzóis, imaginem o sem-fim de possibilidades que se abrem ao “jornalismo de investigação” ou à simples tentação de devassa alheia, se, em vez do Zé dos Anzóis, se tratar de um ministro ou qualquer outra figura mediática! Porém, sucede que a Constituição não diz que todos têm direito à sua privacidade, menos as figuras públicas: diz “todos”e “todos” são todos, sem excepção alguma. É justamente, porque—e isto, sim, é que é intolerável—qualquer funcionário das Finanças pode aceder aos dados de qualquer contribuinte (mas só os dados de alguns é que despertam interesse e podem até ter valor comercial no mercado do jornalismo de sarjeta), que, se não existe, devia existir a tal “lista VIP”. A expressão é infeliz, mas a finalidade é clara: garantir que não existem contribuintes que, por serem “mediáticos”, perdem o direito ao sigilo fiscal. Eu sou a favor da “lista VIP”. [...]

A prosa é cristalina e—para quem não é mentecapto—indiscutível. Fazer da "lista Vip" um caso de Estado é a montanha a dar à luz um ratinho. 
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