Pedro Adão e Silva é uma conhecida personalidade do PS e
cronista habitual no "Expresso". Ontem manifestava dúvidas sobre a
extensão actual do crime de corrupção em Portugal e atribuía o facto de se
dizer que isto é um País de gatunos, para falar claro e depressa, a condicionantes
psicológicas, ou seja, serão mais as vozes que as nozes. Escreve a páginas tantas: "Ora, se todos
os dias nos é sugerido que a corrupção alastra, se interiorizamos e
reproduzimos essa ideia, é natural que passemos a estar convencidos disso
mesmo."
Pergunto ao cronista porque será que todos os dias nos é sugerido
que a corrupção alastra. São invenções? Calúnias? Manobras da reacção? Não são.
São ideias decorrentes de factos notórios e públicos. Ou Pedro Adão e Silva não
conhece nenhum?
É bom lembrar que a corrupção tem muitas faces. Não consiste
apenas em receber monnaie a troco de
práticas ilegais no desempenho dum cargo. As carreiras meteóricas no universo
da economia de fulanos que desempenharam importantes funções públicas são casos
flagrantes de corrupção—e muitas vezes o primeiro passo para o tráfico de
influências. E o nepotismo, com benefício escandalosos de familiares e amigos, o
que é?
Mais à frente, escreve Adão e Silva: "Não digo que Portugal seja, a este
respeito, um cisne. Mas talvez seja aconselhável prudência quando falamos de corrupção.
Afinal de contas, todos temos memória de um país em que era necessário
gratificar para marcar escrituras; em que procedimentos na administração pública
eram acelerados com pequenos pagamentos e no qual grande parte da ação fiscalizadora
era ultrapassável por meios ilícitos."
Adão e Silva está desfocado quando se sai com esta: isso é
corrupção de pilha-galinhas e não é dela que os portugueses se queixam—com essa
podem eles bem. O que os aflige são as nomeações para administrações de pés-rapados cujo património começa a subir como os foguetes em Cabo Canaveral; as
declarações de rendimentos dos políticos no Tribunal Constitucional que
acompanham os mesmos foguetes; as manifestações exteriores de riqueza sem que
ninguém perceba donde vem o cacau, como se verificou ultimamente, e por aí fora.
Não pode Adão e Silva vir dourar a pílula porque ela é
bem amarga e difícil de engolir. Eu, e uma multidão de portugueses, não conseguimos—não
passa da orofaringe. Se Adão e Silva consegue, o problema é dele.
.

Sem comentários:
Enviar um comentário