sábado, 22 de julho de 2017

É PRECISO LER

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É preciso ler. Uma família de nove morre na estrada ao fugir de casa, a casa que não arde, a casa onde a mesa é encontrada posta e o jantar pronto. É preciso reler. Os que vão salvar as máquinas, os que vão buscar o dinheiro, os de lá, os de fora que vão de fim de semana, os que vão inaugurar a casa remodelada, a criança que tem os pais em lua de mel, o bombeiro num desastre a caminho do fogo. É preciso saber. Os que ficam e morrem em casa, os que saem e morrem na estrada, os casais que morrem juntos, a mulher que morre no carro mas não o homem porque mergulha no tanque. É preciso ver. Os carros que capotam, que chocam, que ficam entalados numa árvore, os corpos da avó com a neta ao colo, da mulher enfiada sob a autocaravana, da criança acoitada debaixo do tablier, dos que conseguem sair do carro mas não do fumo. É preciso não esquecer, porque um número não é um número, nem 64, nem sequer 65, contando com a mulher atropelada na fuga da casa que ficou intacta. Não é escatologia nem morbidez, é uma forma de continuar acordado, de lembrar para não esquecer, de não esquecer que enquanto não se encontrar as causas, as falhas, os responsáveis não merecemos a memória dos que morreram. Para não esquecer de acudir, de pedir perdão, de pedir ação, de prevenir, de corrigir. [...]

Fragmento de um texto de Pedro Santos Guerreiro no "Expresso" de hoje para ler dez vezes e não esquecer. Contém, em menos de 250 palavras, quanto baste para perceber o drama de Pedrógão Grande. Devia ser estampado nos gabinetes dos responsáveis pelos meios que falharam naquele dia.
Não se pedem represálias — exige-se consciência do dever e responsabilidade.

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