sábado, 29 de julho de 2017

NÃO SOMOS O CENTRO DA VIDA

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.A novela clássica de H G Wells — "A Guerra dos Mundos" — conta a invasão da Terra por marcianos equipados com armas de alta tecnologia, capazes de arrasar os terráqueos. No auge da vitória final, os marcianos morrem em série, vítimas de doenças infecciosas provocadas por micro-organismos para os quais não têm nenhuma imunidade (presume-se que não há micróbios em Marte). Tanta farronca técnica e seres microscópicos dão cabo deles. 
Esta história "põe o dedo numa ferida" complicada, qual é a da relação histórica dos micróbios com o Homo sapiens. A nossa perspectiva é a de que as bactérias, por exemplo, se aperfeiçoaram, através da selecção natural, no ataque a outros organismos para sobreviver, entre eles nós, o que parece não corresponder à verdade. Estes, entre os quais nós, são meros acidentes e lugares de passagem para elas.
A parte mais importante do meio dos micróbios é, exactamente, o conjunto dos outros micróbios — é verdade! A sua carreira evolutiva fez-se, globalmente, para adaptação ao meio microbiano e não ao macrobiano. Há milhares de milhões de anos que interagem uns com os outros, numa guerra surda que escapa ao nosso egocentrismo. O parasitismo do homem é um pormenor despiciendo na vida microbiana, mesmo tendo ocorrido alguma adaptação de uma minoria a esse parasitismo.
A ilustração clássica do referido é constituída pela descoberta da penicilina por Fleming, porventura um dos maiores achados da Medicina moderna. Fleming observou que numa cultura de fungos Penicillium, acidentalmente contaminada por bactérias, estas não cresciam em halos em volta das colónias do fungo — o Penicillium produziria algum produto capaz de liquidar as bactérias, produto que viria a ser identificado e chamado penicilina, originalmente arma de uma guerra microbiana.

Portanto, e globalmente, o Homo sapiens é um alvo secundário e desprezível para o mundo microbiano. Só a nossa farronca e ignorância nos coloca no centro da vida, vida essa onde nem as bactérias nos consideram grande coisa.
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