Diz-se—não sei se bem—que a Filosofia tem três propósitos:
explicar como o mundo se mantém, justificar as nossas convicções, e ensinar a
viver; sendo que no último caso está compreendido o saber morrer. Cícero dizia
mesmo que filosofar era aprender a morrer, mas Cícero era um nadinha simplista
e exagerado, segundo me parece.
Por exemplo, Sócrates—o propriamente dito—antes de beber
a cicuta disse para os circunstantes que
a morte, ou era a aniquilação, e consequentemente um sono sem sonho; ou a migração
da alma de um lugar para outro lugar; o que, diga-se, não está mal visto. Por
isso, não o assustava a dita.
Mas nem todos têm a felicidade de morrer em
circunstâncias que ficam para a História, como teve Sócrates. Platão, por
exemplo, terá morrido duma infestação por piolhos, situação pouco propícia a grandes tiradas filosóficas. E que
dizer do suicídio de Metrocles depois de ser traído pelo efeito duma feijoada
quando fazia uma dissertação magistral em público? E de Marx, com furunculose
na área púdica, ou Nietzsche com sífilis, ou Freud com um cancro da mandíbula,
tão mal cheiroso que até o seu cão se afastava?
O problema não é só morrer—é talvez mais ainda como se
morre. Para além das circunstâncias aleatórias, inevitáveis e dramáticas como
as citadas, há ainda o lado subjectivo da morte, ou seja, como a encara o que
parte.
Há de tudo na História, mas um merece ser citado—Heinrich
Heine dizia: Deus vai-me perdoar. É o Seu trabalho". Heine era um optimista e não é fácil sê-lo
naquelas circunstâncias, está bom de ver.
Como preparar, então, o passamento? Montaigne dizia para manter
permanentemente a morte presente no espírito e na palavra—coisa sinistra e não
muito divertida, embora não se possa viver só de divertimento. Espinosa estava
nos antípodas quando dizia: "Um homem livre pensa o menos possível na
morte". Epicuro, muito contestado por isso, dizia que é irracional ter
medo da morte por três razões. Primeiro porque, se a morte é aniquilação, não
há que ter medo dela pois não há experiência nenhuma depois—onde está a morte
não está Epicuro, onde está Epicuro não está a morte. Depois porque morrer novo
ou velho é irrelevante, uma vez que a morte é para a eternidade. Finalmente, porque
a morte é o espelho da não existência antes do nascimento e não há razão para encarar
uma de forma diferente da outra e ninguém se preocupa com a primeira.
Epicuro tem levado muita pancada ao longo da História por
causa desta esperteza, talvez merecida. Não tenho espaço para citar os seus detractores, mas o homem, ainda assim, não era parvo—basta consultar a informação sumária da Wikipedia. A título de curiosidade,
refiro que a morte física, segundo ele, era o fim do corpo pela desintegração
dos átomos que o constituem, de forma a que estes, eternos e indestrutíveis,
ficavam livres para constituir outros corpos—esperto!...
Infelizmente, não tenho conhecimento de como morreu Epicuro. Sei apenas que teve a vida atormentada por dores de litíase (pedra) nas vias urinárias.
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Ai dos homens que matam a morte por medo da vida.
Vinicius de Moraes
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Ai dos homens que matam a morte por medo da vida.
Vinicius de Moraes
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