terça-feira, 20 de março de 2012

O GOOGLE ESTÁ A FAZER-NOS BURROS?

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Qual é a capital dos Emirados Árabes Unidos? E quem foi aquele tipo que realizou o filme “Casablanca”? E em que ano resignou Nixon? Não se lembra? Não importa: é só ir ao Google e, em menos de um minuto, fica a saber a resposta e ainda mais alguns pormenores! Bom, não é?
Talvez seja mas tem preço, dizem alguns. E eu, que acho óptimo o Google, também já percebi que tem preço. De tudo quanto se diz, a primeira coisa que noto é a falta de paciência para ler textos longos com cuidado e vagar, procurando interpretar bem todos os aspectos, incluindo os menos claros, e pensar neles; eventualmente voltar a ler de novo. É que está ali, bem à vista, um link para outra página sobre a mesma matéria onde pode ser que a coisa esteja mais clara nesses aspectos. E a próxima está melhor, mas ainda há áreas pouco claras e o melhor é seguir outro link. Blá, blá, blá. Está a ver-se que os textos, sejam obras clássicas, sejam obras de blogs rafeiros, são todos passados de raspão, o que é mau: os internautas gastam em média menos de dois minutos a visitar um site - surfing superficialão. Além de fazermos pouco esforço mental, nem chegamos a apreciar o notável de alguns escritos.
Depois porque estudar um tema é trabalho personalizado e bidireccional. Não adquirimos apenas o conteúdo do tema, mas treinamos a forma de pesquisar com critério. No Google não temos critério nenhum; ou quase nenhum: o critério é todo dele. Limitamo-nos a seguir o caminho que nos indica através de links; e pode fazê-lo com viés. O Google não é a Sociedade Recreativa de Alfornelos. Trabalham naquela cangalhada multidões, e nas multidões há sempre sacanas, para falar bem e depressa.
É certo que Sócrates (não confundir com o Zézito) também estava contra a escrita porque, dizia, os homens iam tornar-se “esquecidos”. Talvez quisesse dizer preguiçosos mentais, mas não estou certo. Não sei como era o homem no tempo dele: talvez fosse mais arguto e menos “esquecido”, mas a escrita não obstou a que evoluísse e chegasse ao que é hoje. Não é uma maravilha, mas podia ser pior, digo eu. Também a imprensa foi objecto de crítica, especialmente porque se argumentava que a democratização do conhecimento ia degradar a crença religiosa. Mal vai a crença religiosa que não resiste ao conhecimento.
Em resumo, no reino online, os textos são desnatados pelos leitores; a prática do link-jumping é trivial; a leitura em diagonal é a regra; e a prosa longa e difícil, como a de alguns livros e revistas, é considerada indigesta e de evitar. Tudo isto é verdade. Mas pode contrapor-se que o acesso às fontes culturais, mesmo as mais difíceis, se tornou rápida, cómoda e barata, e muitos dos que lêem coisas inesperadas hoje jamais o fariam sem essa obra notável parida pelos encéfalos de Larry Page e Sergei Brin.

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